Um mês de destruição: as tempestades que expuseram as fragilidades do país
Há um mês, Portugal foi devastado por um "comboio" de tempestades que deixou um rasto de destruição sem precedentes. Dezoito pessoas perderam a vida, centenas ficaram feridas e os prejuízos podem ultrapassar os cinco mil milhões de euros. Uma catástrofe que expôs as fragilidades de um país mal preparado para enfrentar as alterações climáticas.
A depressão Kristin chegou primeiro, com ventos de 200 quilómetros por hora que varreram tudo à sua passagem. Depois vieram Leonardo e Marta, completando um ciclo de destruição que atingiu sobretudo os distritos de Leiria, Coimbra, Santarém e Lisboa. As classes trabalhadoras, como sempre, foram as mais castigadas.
Quando a natureza cobra a factura do abandono
Entre 1 e 15 de fevereiro, a Autoridade Nacional de Emergência registou 19.066 ocorrências. Mais de 64 mil operacionais mobilizados, 26 mil meios no terreno. Números que falam por si, mas que escondem o drama humano de quem viu a sua vida virada do avesso.
As quedas de árvores foram a ocorrência mais registada (5.649), seguidas das inundações (5.252). Um padrão que revela décadas de desinvestimento na manutenção das florestas e na prevenção de cheias. O preço do abandono do interior cobra-se sempre aos mais vulneráveis.
Vítimas de um sistema que falha
Dezoito mortes oficiais, mas quantas mais se esconderam nos hospitais? A maioria das vítimas morreu em quedas de telhados durante reparações, traumas causados por estruturas que desabaram, incidentes em cursos de água. Mortes que podiam ter sido evitadas com políticas de prevenção adequadas.
O Hospital de Santo André, em Leiria, recebeu 756 feridos só nos primeiros dias. Centenas de pessoas deslocadas, 374 desalojados oficiais. Em Almada, 500 pessoas foram retiradas das suas casas devido a deslizamentos de terras que continuam a ocorrer.
O colapso das infraestruturas
Um milhão de clientes ficaram sem energia elétrica no pico da tempestade Kristin. Um mês depois, ainda há quem não tenha luz. A EDP fala em recuperação "praticamente concluída", mas o presidente da Câmara de Leiria desmentia: mais de 200 clientes continuavam às escuras.
Nas telecomunicações, 300 mil clientes foram afetados. As operadoras prometem 90% de reposição, mas para quem continua isolado, as percentagens são letra morta.
O negócio da reconstrução
O Governo aprovou apoios de 3,5 mil milhões de euros. Números impressionantes no papel, mas que escondem uma realidade cruel: para as habitações inabitáveis, o apoio máximo de 10 mil euros é manifestamente insuficiente.
Paulo Fernandes, o coordenador nomeado para a reconstrução, fala em prejuízos entre cinco e seis mil milhões. As seguradoras já contabilizam 750 milhões em danos indemnizáveis. Mais uma vez, quem não tem seguro fica abandonado à sua sorte.
Entre 35 a 40 mil empresas afetadas
No setor empresarial, os números são devastadores. Entre 35 a 40 mil empresas ficaram com danos, mais de 300 pedidos de lay-off afetando três mil trabalhadores. Os patrões suspendem contratos, os trabalhadores ficam no desemprego.
Na agricultura, os prejuízos ultrapassam os 449 milhões de euros. Pequenos produtores que viram o trabalho de uma vida destruído em poucas horas, enquanto os grandes grupos agroindustriais têm seguros que os protegem.
A resposta política: demasiado pouco, demasiado tarde
A ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, demitiu-se. Um bode expiatório conveniente para um problema estrutural que atravessa décadas. Mudam os ministros, mantém-se o abandono das populações.
O Governo anuncia agora o PTRR, um programa de "transformação e resiliência" cuja versão final só será aprovada em abril. Mais promessas para um futuro incerto, enquanto as pessoas continuam a viver em casas danificadas.
Lições que não se aprendem
Esta catástrofe expôs as fragilidades de um país que continua a apostar num modelo de desenvolvimento que ignora as alterações climáticas e abandona as populações mais vulneráveis. Enquanto não houver uma verdadeira política de prevenção e investimento público, as próximas tempestades encontrarão o mesmo país desprotegido.
Os cinco mil milhões em prejuízos são apenas a conta mais visível. A verdadeira factura paga-se em vidas perdidas, famílias destroçadas e comunidades abandonadas à sua sorte. É tempo de exigir mais do que promessas: é tempo de exigir justiça climática.