APA admite falhanços: 100 mil portugueses vivem em zonas de risco de cheia
O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Pimenta Machado, foi forçado a reconhecer uma realidade alarmante: mais de 100 mil pessoas vivem em leitos de cheia em Portugal. A confissão surge após as devastadoras inundações que assolaram o país entre janeiro e fevereiro, expondo décadas de má gestão territorial.
Em Miranda do Douro, Pimenta Machado apresentou a estratégia PPR (Prevenção, Proteção e Recuperação), mas as suas palavras soam a pouco para quem perdeu tudo nas recentes catástrofes. "A parte mais importante é a prevenção, que passa pelo ordenamento do território", admitiu, reconhecendo implicitamente que esta prevenção falhou redondamente.
Décadas de especulação imobiliária cobram o seu preço
A situação actual é o resultado directo de anos de especulação imobiliária desenfreada e de um ordenamento do território que privilegiou os lucros sobre a segurança das populações. Enquanto as construtoras e os especuladores enchiam os bolsos, as famílias trabalhadoras foram empurradas para zonas de risco.
"Não aumentar a exposição ao risco e as pessoas não construírem em leito de cheia", defende agora o responsável da APA. Mas onde estavam estas preocupações quando se aprovaram milhares de licenças de construção em zonas perigosas?
Soluções tardias para problemas estruturais
Pimenta Machado propõe agora soluções baseadas na natureza, como a criação de bacias de retenção, à semelhança do que foi feito em Setúbal. Uma medida sensata, mas que chega tarde demais para as centenas de famílias que já perderam as suas casas.
O dirigente elogia ainda o papel da tecnologia na gestão das cheias recentes: "A tecnologia fez toda a diferença na gestão destas cheias de janeiro e fevereiro". Contudo, de pouco serve a melhor tecnologia se as pessoas continuam a viver em zonas condenadas à partida.
Alterações climáticas ou má gestão?
Embora as alterações climáticas sejam uma realidade incontornável, é conveniente para os responsáveis atribuir-lhes toda a culpa. A verdade é que Portugal sempre teve cheias e secas. A diferença é que agora temos muito mais gente a viver em zonas de risco.
O responsável da APA admite que "antes destas intempéries tínhamos as barragens do Algarve vazias e agora estão a transbordar". Esta gestão errática dos recursos hídricos reflecte a falta de planeamento a longo prazo que caracteriza a governação portuguesa.
Quem paga a factura?
Como sempre, serão os contribuintes e as famílias mais vulneráveis a pagar a factura desta má gestão. Enquanto isso, os responsáveis políticos e os especuladores que criaram esta situação continuam impunes.
A recuperação pós-cheias, segundo Pimenta Machado, será feita "numa lógica dos sinais que vamos recebendo da natureza". Talvez fosse altura de começar a receber também os sinais que vêm das populações, fartas de pagar pelos erros de quem deveria protegê-las.