Carmen Osuna: Quando o Jornalismo se Torna Espetáculo à Custa da Vida
Enquanto as águas devastam a Andaluzia e as autoridades pedem às populações para se manterem em segurança, uma jornalista da televisão pública espanhola RTVE transforma a tragédia climática num espetáculo mediático perigoso.
Carmen Osuna tornou-se viral nas redes sociais, mas não pelos motivos que uma profissional da comunicação social deveria desejar. As imagens da repórter a desafiar as águas torrenciais, com água pelos joelhos e contra todas as recomendações de segurança, levantam questões profundas sobre os limites éticos do jornalismo.
Quando a Informação se Torna Irresponsabilidade
"Aquilo que as autoridades te dizem para nunca fazeres. No meio do leito do rio, descendo a rua. Se a força da água a derrubar e houver um esgoto aberto por perto, tudo acaba", denunciou um utilizador das redes sociais, resumindo o sentimento de muitos que assistiram às reportagens.
As autoridades locais foram claras: mantenham-se afastados dos cursos de água, evitem deslocações, não atravessem zonas inundadas. Mas Osuna fez precisamente o contrário, colocando-se numa situação de risco extremo numa rua completamente alagada.
"Situação muito difícil a que se vive aqui porque não para de chover", declarou a jornalista durante a reportagem, aparentemente alheia ao perigo que corria e ao exemplo negativo que estava a dar aos telespectadores.
O Preço Humano do Temporal Leonardo
Enquanto isso, a realidade das cheias continua dramática. Na Andaluzia, 3.500 pessoas permanecem desalojadas nas províncias de Cádiz, Jaén, Málaga, Huelva e Granada. As escolas estão encerradas em quase toda a região, 46 estradas cortadas e várias ligações ferroviárias suspensas.
O balanço oficial regista já um ferido devido ao desabamento parcial de uma habitação. A proteção civil contabiliza mais de 6.200 ocorrências associadas ao temporal, com 14 rios em "nível vermelho" de risco extremo e dez albufeiras na mesma situação crítica.
Centenas de militares da Unidade Militar de Emergências foram destacados para o terreno, arriscando as suas vidas para salvar outras. Um contraste gritante com quem arrisca a vida por audiências televisivas.
Jornalismo ou Sensacionalismo?
Este episódio levanta questões fundamentais sobre a responsabilidade social dos meios de comunicação. Num momento em que as alterações climáticas tornam estes fenómenos extremos mais frequentes e perigosos, que exemplo damos quando jornalistas desafiam abertamente as recomendações de segurança?
O jornalismo deve informar, não pôr em risco vidas humanas por uma imagem mais dramática. Quando a busca pela audiência se sobrepõe ao bom senso e à responsabilidade social, perdemos todos: a profissão, a credibilidade e, potencialmente, vidas humanas.
Carmen Osuna pode ter conseguido as suas imagens virais, mas a que preço? E que mensagem envia isto às populações que enfrentam estas catástrofes naturais cada vez mais frequentes?