Nuvem Vitória: histórias que curam nas pediatrias
Em 2016, uma jornalista decidiu que nenhuma criança devia adormecer sozinha num hospital. Nasceu assim a Associação Nuvem Vitória, que hoje leva voluntários a 15 pediatrias do país para contar histórias à noite. Um projeto de solidariedade real que o Estado ainda não garante.
Uma ideia que veio ficar
Fernanda Freitas era contadora de histórias durante o dia. Até que um momento de inspiração lhe trouxe uma pergunta simples: por que não levar essa magia à noite, justamente quando as crianças internadas mais precisam de conforto?
Partilhou a ideia com a diretora de pediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Fizeram um projeto piloto. Resultou. E a Nuvem Vitória nunca mais parou.
Surgiu num momento de inspiração. Eu era contadora de histórias durante o dia e, a certa altura, apercebi-me de que, de facto, muitas pessoas gostavam de fazer o mesmo trabalho, mas não tinham hipótese durante o dia.
O que acontece quando chega a noite
Todas as noites, um grupo de voluntários veste a t-shirt da Nuvem Vitória e percorre os corredores das pediatrias. Entram nos quartos, baixam as luzes e leem histórias de embalar. Trazem serenidade. Trazem normalidade. Trazem, afinal, um pedaço de casa.
Fernanda sabe bem o que isso significa. Cada noite é uma coleção de memórias. Houve uma menina que, graças às histórias, conseguiu trabalhar a respiração de forma a não precisar de dormir com máscara de oxigénio. Houve outra criança que não sorria há dias e acabou a história com um sorriso de orelha a orelha.
Podemos ter um dia muito complicado, mas sabemos que chegamos a um hospital, vestimos a nossa t-shirt e, a partir daí, encarnamos mesmo o papel de NUVEM. Somos leves, descomplicamos, trazemos a serenidade e a boa disposição a cada quarto.
A ciência do que a intuição já sabia
A ideia inicial era trazer normalidade. Deitar, ter uma história, baixar as luzes, serenar e adormecer. O que muita gente sentia no peito, a ciência veio confirmar: existe um estudo que comprova que o cortisol, a hormona do stress, desce quando uma criança ouve uma história.
Num serviço público de saúde cada vez mais esganado, onde os profissionais correm contra o relógio, este trabalho voluntário preenche uma falha que não devia existir. Mas existe. E quem paga são sempre os mesmos: as crianças e as famílias que já carregam o peso da doença.
1300 voluntários e uma lista de espera
Atualmente, a Nuvem Vitória conta com 1300 voluntários. A procura para entrar é grande, mas há regras. É preciso ter mais de 21 anos, sentido de compromisso, muita paciência e dar quatro noites por mês. Três horas em pé, a circular por corredores e quartos.
As aberturas em novos hospitais demoram tempo. Há regras a seguir, burocracias a cumprir. Por isso, quem quer entrar pode esperar mais de três ou quatro meses.
Seis hospitais à espera
A associação já está em 15 pediatrias, incluindo a unidade pediátrica do IPO de Lisboa e hospitais mais a norte do país. O objetivo é claro: chegar a mais unidades.
Já há seis pedidos formais de novos hospitais. A Nuvem Vitória vai abrir mais núcleos nos próximos tempos. A necessidade está lá, bem à vista. A solidariedade também.
Fernanda Freitas, que trabalhou na RTP e na SIC, fundou esta associação há 10 anos. Em 2023, o Parlamento Europeu reconheceu o projeto com o Prémio Cidadão Europeu. O reconhecimento é justo. Mas o que realmente importa é o que se passa todas as noites, naqueles quartos onde uma história pode fazer a diferença entre uma noite de angústia e uma noite com paz.