Gestor dos atrasos ferroviários mantém-se na IP
O novo conselho de administração da Infraestruturas de Portugal (IP) já tem dono e, para quem esperava uma viragem, a surpresa é pouca. Carlos Fernandes, o vice-presidente que tem nas mãos a ferrovia e o polémico projeto de alta velocidade, continua no lugar. A nomeação sai do Governo que prometia mudança, mas a continuidade impera.
Além de Carlos Fernandes, transita também para a nova equipa Maria Amália Freire de Almeida, que era vice-presidente e agora deverá ficar como vogal. O novo presidente será Paulo Carmona, até há pouco tempo diretor-geral da Energia, que substitui Miguel Cruz, nomeado pelo último governo socialista e ex-secretário de Estado do Tesouro e Finanças. Entram ainda Rui Coutinho, Ana Rita Matos, Maria Helena Campos e Alberto Aroso. As nomeações deverão ser aprovadas em assembleia-geral esta sexta-feira.
Reforço de quadros para acelerar investimento
O conselho de administração é assim alargado para sete membros. A empresa estava com cinco gestores executivos depois da renúncia de Gina Pimentel no ano passado. O anterior elenco, eleito em 2022, tinha seis elementos, incluindo dois vice-presidentes, e tinha terminado o mandato no final de 2024.
Segundo informação avançada pelo Observador, Rui Coutinho, alto quadro da IP que estava no gabinete do ministro das Infraestruturas como adjunto, será vice-presidente. Ana Rita Matos assumirá funções de administradora financeira. A IP é a empresa pública com maior orçamento para investir e mais fluxos financeiros por causa das parcerias público-privadas.
Um dos objetivos do reforço do número de administradores é, alegadamente, acelerar a capacidade de execução de investimento por parte da Infraestruturas de Portugal. Durante a audição regimental realizada esta quarta-feira, o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, foi confrontado pelo PS com a queda do investimento na ferrovia no ano passado. Na mesma audição, o secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo, sinalizou que o Governo vai mudar o conselho de administração da empresa para acelerar a capacidade de execução.
Atrasos, auditorias e fundos europeus perdidos
Os atrasos na concretização dos projetos ferroviários, precisamente a área sob tutela direta de Carlos Fernandes, têm sido muito questionados, tendo levado à realização de uma auditoria por parte do regulador. A Autoridade de Mobilidade e Transportes (AMT) identificou fragilidades estruturais nos investimentos que afetam a capacidade de prever e executar os projetos.
A própria administração da IP já fez o seu mea culpa, culpando calendários e planeamento desadequados face à capacidade de resposta do mercado.
Começar um projeto para quatro anos e acabar em oito anos foi uma estupidez completa, admitiu Carlos Fernandes numa audição no Parlamento em 2024.
Um caso recente e particularmente polémico foi a perda de fundos europeus do Programa Alentejo 2030 destinados ao troço Casa Branca-Beja. Dinheiro europeu que poderia transformar a vida de quem depende do comboio na região, desperdiçado.
Enquanto isso, a IP lucrou 135 milhões de euros em 2025, precisamente num ano de redução de investimento na ferrovia. A empresa lucra, mas o país fica à espera dos comboios que lhe foram prometidos.
Carlos Fernandes tem sido o principal rosto da promoção do projeto de alta velocidade em Portugal, um investimento que finalmente reuniu o consenso dos principais partidos. Já esteve ligado ao primeiro projeto da alta velocidade no país, desenvolvido durante os governos de José Sócrates, e está na administração da IP desde 2016. Ou seja, conhece bem os corredores do poder e as promessas que ficam pelo caminho.