Tomar suplementos alimentares em excesso pode causar danos no fígado, pedras nos rins e desequilíbrios nutricionais, avisam especialistas citados num artigo publicado esta semana pelo EatingWell e reproduzido pelo Notícias ao Minuto. A mensagem é clara: mais não é melhor, e o autodiagnóstico de quem se abastece de frascos de vitaminas pode custar caro.
Os suplementos podem ter utilidade real quando existem carências comprovadas, mas o consumo desregrado, feito sem orientação médica, transforma o que parece um gesto de saúde num risco silencioso. Segundo a reportagem do Notícias ao Minuto, os problemas vão muito além de um simples desconforto.
Porque é que o excesso de suplementos faz mal ao fígado?
O fígado é o principal filtro do corpo e também armazena nutrientes. É aí que começa o problema. As vitaminas lipossolúveis, como a vitamina A, acumulam-se no organismo em vez de serem eliminadas pela urina, como acontece com as vitaminas hidrossolúveis.
“Como as vitaminas lipossolúveis são armazenadas no fígado, o seu consumo excessivo, como a vitamina A, ao longo do tempo pode levar a problemas hepáticos graves”, afirmou a dietista Erin Person.
A lista de produtos preocupantes não é curta. Extrato de chá verde, ashwagandha, kava, cúrcuma, cimicífuga e vitamina B3 figuram entre os suplementos associados a danos hepáticos. Quem já tem uma doença no fígado, ou ultrapassa as doses recomendadas, está a dobrar a aposta num risco que não se vê.
Suplementos podem anular os seus medicamentos
Aqui está um dos pontos mais graves e menos divulgados: os suplementos não precisam de receita médica, mas interferem com medicamentos que a exigem. O resultado pode ser um tratamento que deixa de funcionar sem que o doente perceba.
É o caso dos suplementos de cálcio e de ferro, que podem bloquear a absorção da levotiroxina, medicamento habitual para a tiroide. Quem toma a pílula de manhã e o frasco de suplementos ao almoço pode estar a sabotar o próprio tratamento.
Desequilíbrios nutricionais: quando um nutriente rouba o lugar ao outro
Tomar muitos suplementos ao mesmo tempo pode ser contraproducente. Certos nutrientes competem entre si pelas mesmas vias de absorção.
“Ao tomar cálcio ao mesmo tempo que ferro, o cálcio pode bloquear a absorção do ferro, já que ambos são absorvidos pelas mesmas vias”, explicou Person.
O zinco e o cobre vivem o mesmo conflito. “Alguém pode estar a tomar zinco regularmente a pensar que isso ajudará o seu sistema imunológico, quando na verdade pode causar um desequilíbrio de outros micronutrientes”, notou a nutricionista Julie Stefanski.
Como recorda a CNN Brasil num artigo recente, a ideia de que vitaminas não fazem mal por serem nutrientes essenciais é um erro comum que persiste entre os consumidores.
Pedras nos rins: o preço de doses concentradas
Os rins filtram os resíduos do sangue, e alguns suplementos alteram a composição da urina. Quem tem tendência a formar cálculos renais deve redobrar a atenção.
“Muitos suplementos de ervas, especialmente aqueles que contêm canela, beterraba, cúrcuma, pimenta-do-reino ou espinafre, podem conter doses incrivelmente altas de oxalato”, sublinhou a dietista Melanie Betz.
Comer estes alimentos em pequenas quantidades não levanta problemas. O suplemento concentrado é outra conversa: a dose deixa de ser a de um prato de comida e passa a ser a de um laboratório.
“Natural” não significa seguro para toda a gente
Os especialistas são unânimes: mesmo um suplemento com ingredientes naturais não é inofensivo por definição.
“Existe um risco potencial de danos com suplementos para qualquer pessoa”, disse Betz, acrescentando que pessoas com doenças renais ou hepáticas, ou cujo organismo tem dificuldade em eliminar substâncias, precisam de cautela redobrada.
Como nota a especialista ouvida pelo 24 Notícias, a dose certa importa mais do que o formato, e o consumo de mais produtos não garante melhores resultados.
A indústria do bem-estar e a saúde como mercadoria
Vale a pena perguntar porque é que tanta gente se automedica com suplementos. A resposta tem menos a ver com ciência e mais com marketing. A indústria do bem-estar vende a promessa de saúde em frascos, com promessas de energia, imunidade e juventude, muitas vezes sem prova clínica que as sustente.
Quem não consegue pagar consultas de nutrição ou espera meses por uma consulta no Serviço Nacional de Saúde acaba por decidir sozinho na prateleira da farmácia ou da loja online. O resultado é um mercado sem controlo real de eficácia, onde o lucro vem primeiro e os avisos vêm em letra pequena.
A recomendação dos especialistas é simples e não custa nada: antes de acrescentar um suplemento à rotina, falar com o médico de família. O SNS existe para isso, e é a primeira linha de defesa contra promessas caras e riscos escondidos.
Perguntas frequentes
Tomar demasiados suplementos faz mal à saúde?
Sim. O excesso pode causar danos no fígado, pedras nos rins, desequilíbrios nutricionais e interações perigosas com medicamentos, segundo os especialistas ouvidos pelo EatingWell.
Os suplementos naturais são sempre seguros?
Não. “Existe um risco potencial de danos com suplementos para qualquer pessoa”, alertou a dietista Melanie Betz, com especial cautela para quem tem doenças renais ou hepáticas.
Os suplementos interferem com medicamentos?
Sim. O cálcio e o ferro, por exemplo, podem reduzir a absorção da levotiroxina, medicamento comum para a tiroide, tornando o tratamento menos eficaz.
