O escritor francês Yannick Haenel venceu esta quarta-feira, 4 de novembro, o Prémio Femina 2026 com o romance La solitude des professeurs est infinie, uma história sobre a solidão de um jovem professor colocado nos subúrbios de Paris, publicada pela Gallimard.
O anúncio foi feito em Paris, na sede da casa Dior, e chega-nos através do relato do Observador. O livro já vendeu mais de 45 mil exemplares em França e dá voz a uma profissão que raramente aparece nos prémios literários: a de quem ensina nas periferias, com turmas difíceis, salários magros e ninguém a ouvir.
O romance acompanha Jean Deichel, um professor de francês de 22 anos, colocado num colégio dos subúrbios da capital francesa no início da década de 1990. Alojado num clube de ténis em Deuil-la-Barre, o protagonista enfrenta os desafios da sala de aula, as relações com alunos e colegas e uma crise pessoal que cresce página após página, tudo enquanto tenta transmitir o gosto pela literatura.
Uma história escrita com a tinta da experiência
Nascido em Rennes em 1967, Haenel foi professor de francês até 2005. O romance é, em boa parte, memória transformada em ficção. Quem já trabalhou em escolas de bairros populares reconhece o terreno: a distância entre o discurso oficial sobre a educação e a realidade vivida dentro das salas, a burocracia, o abandono a que estes territórios foram votados por décadas de políticas de austeridade e desinvestimento.
Como nota a Swissinfo, o livro é inspirado nos anos de ensino do autor na periferia parisina. O jornal francês 20 Minutes sublinha que se trata de um dos prémios mais prestigiados das letras francesas.
Haenel esteve também entre os quatro finalistas do Prémio Goncourt, atribuído na terça-feira a Philippe Jaenada, pelo romance L'Inconnue du quai de Javel. A estação France Inter descreveu o Femina como uma consagração para o autor de 59 anos, que as equipas da Gallimard não imaginavam terminar a temporada de prémios literários de mãos a abanar.
Que prémio é o Femina?
O Prémio Femina foi criado em 1904 por 22 colaboradoras da revista feminina La Vie Heureuse, em resposta ao Prémio Goncourt, cujo júri, exclusivamente masculino, era criticado por escolhas marcadas pela misoginia. Hoje, o Femina é atribuído por um júri de 12 mulheres, o que continua a ser uma afirmação política num mundo literário ainda dominado por homens.
No ano passado, o prémio foi para Nathacha Appanah, com La Nuit au Coeur, um romance que entrelaça três histórias de mulheres vítimas de violência dos seus companheiros. A escolha deste ano volta a mostrar que o Femina tende a distinguir livros que falam do mundo real e das suas feridas.
Os outros vencedores e finalistas
Na categoria de romance estrangeiro, o prémio foi para a norte-americana Laura Kasischke, com Baignade surveillée, publicado em França pela Gallimard. O romance reconstitui a morte por afogamento de uma criança de cinco anos numa piscina do Michigan, em 1969, no dia em que a missão Apollo 11 parte para a Lua.
Entre os finalistas estrangeiros figuravam nomes conhecidos dos leitores portugueses: Katie Kitamura, com Audição, editado pela Alfaguara, e o irlandês Paul Murray, com A Picada de Abelha, editado pela Livros do Brasil.
Na categoria de ensaio, o júri distinguiu Jennifer Tamas, com Barbe Bleue, contre-enquête, publicado pela Seuil, uma releitura crítica do conto Barba Azul de Charles Perrault centrada nos mecanismos de dominação masculina, violência conjugal e feminicídio. Nada de consolo burguês: um ensaio sobre violência contra as mulheres num ano em que o tema continua a ser urgente.
Na corrida ao Femina de romance francês, ficaram para trás David Djaïz com La Méthode, Élise Lespade com Paradisi Gloria, Emma Marsantes com N'efface pas mes cercles e Lucie Rico com Mais que fait ce sang sur le pull de Jennifer?
E em Portugal?
Em Portugal, o único livro editado de Haenel é Jan Karski: O Herói que Tentou Travar o Holocausto, publicado pela Editorial Teorema em 2010. Ainda não foi anunciada data para a tradução de La solitude des professeurs est infinie, o que significa que os leitores portugueses terão de esperar, ou recorrer ao original em francês.
O anúncio encerra uma semana importante para as letras francesas, que abriu com o Prémio Médicis na segunda-feira e prosseguiu, na terça-feira, com os prémios Goncourt e Renaudot.
Perguntas frequentes
Quem venceu o Prémio Femina 2026?
Yannick Haenel, com o romance La solitude des professeurs est infinie, publicado pela Gallimard. O anúncio foi feito a 4 de novembro de 2026, em Paris.
Sobre o que fala o romance premiado?
Sobre a solidão e as dificuldades de um jovem professor de francês de 22 anos colocado num colégio dos subúrbios de Paris, no início da década de 1990.
Quando foi criado o Prémio Femina?
Em 1904, por 22 colaboradoras da revista La Vie Heureuse, em oposição ao Prémio Goncourt, cujo júri era exclusivamente masculino.
O livro está editado em Portugal?
Não. Ainda não há data anunciada para a tradução. O único livro de Haenel publicado em português é Jan Karski, pela Editorial Teorema, em 2010.
