Os eleitores norte-americanos entregaram ao Partido Democrata o controlo das duas câmaras do Congresso nas eleições intercalares, num resultado que reacendeu o debate sobre os centros de dados dedicados à inteligência artificial e que deixou os grandes grupos tecnológicos em alerta. Elon Musk, o homem mais rico do mundo e um dos maiores financiadores do campo republicano, já reagiu com ironia à derrota dos candidatos que apoiou.
Segundo o Correio da Manhã, a vitória democrata levou Musk a admitir publicamente a possibilidade de levar as suas infraestruturas para fora do alcance de qualquer regulação terrestre. «Os centros de dados no espaço parecem agora particularmente atraentes», escreveu o fundador da SpaceX na rede social X.
Uma piada que revela uma derrota política
«Tenho a sensação de que a interferência dos meus lasers espaciais nas eleições não funcionou desta vez», brincou Musk, após a derrota de Ken Paxton, o candidato que apoiava para o Senado pelo Texas. A troca de palavras, feita em tom de humor, esconde um problema bem real para o multimilionário: gastou somas avultadas em apoio aos republicanos e viu o investimento gorado.
Musk transferiu para o Texas as sedes das suas principais empresas, Tesla, SpaceX e X, precisamente num estado que o governador cessante, Greg Abbott, queria transformar no «centro nevrálgico do desenvolvimento da IA», como declarou em 2025. A Alphabet, dona da Google, também anunciou a construção de vários centros de dados no estado.
O Texas vira a página
O Texas, historicamente conservador, foi um dos grandes bastiões perdidos pelo campo de Donald Trump. Os cargos de senador e governador passaram para responsáveis democratas favoráveis a uma maior supervisão dos centros de dados, num sinal claro de descontentamento popular.
«É necessário estabelecer imediatamente uma moratória sobre os centros de dados», defendia Gina Hinojosa, advogada que derrotou Abbott nas urnas. A nova governadora defende igualmente o fim das isenções fiscais concedidas ao setor, uma posição partilhada por James Talarico, eleito senador pelo estado na terça-feira.
Abbott teve de moderar a sua posição ao longo da campanha, perante o crescente descontentamento da população. As comunidades locais queixam-se dos custos energéticos e ambientais destes gigantes informáticos, enquanto as empresas acumulam benefícios fiscais generosos. É a velha história: os lucros são privados, os prejuízos são públicos.
Porque é que o Texas é decisivo para a IA
As eleições neste estado do sul dos EUA foram descritas por muitos analistas como decisivas para o futuro das infraestruturas ligadas à inteligência artificial. A abundância de energia e um enquadramento regulamentar favorável tornaram o Texas um paraíso para o setor: segundo estimativas da Bloom Energy, o estado deverá concentrar, em 2028, cerca de 30% da procura nacional de energia elétrica destinada à IA.
Segundo o KuCoin, o CEO da Altimeter Capital, Brad Gerstner, afirmou na noite da eleição que a vitória democrata pode levar a uma desaceleração na construção de centros de dados, embora considere exagerado pensar que a vitória democrata vá paralisar a construção por todo o país.
Wall Street em sobressalto
Os mercados sentiram de imediato o resultado. Wall Street deve a sua impressionante valorização dos últimos anos ao entusiasmo em torno da inteligência artificial, mas os investidores mostram-se cada vez mais exigentes quanto à rentabilidade desta tecnologia dispendiosa. Nas negociações antes da abertura da bolsa, as tecnológicas Microsoft, Google e Amazon recuaram cerca de 1%, enquanto a SpaceX registou uma queda de 5%.
Como refere a Euronews, alguns investidores receiam que uma vitória democrata alargada no Congresso conduza a mais regulamentação e a restrições ao desenvolvimento da IA. «Tendo em conta a dimensão da vitória democrata» e dos referendos que apelam à restrição dos centros de dados, «os políticos que querem conservar os seus empregos terão de ter em conta estas mensagens», considerou na rede social X Jim Bianco, analista da Bianco Research.
Os governadores têm a palavra
Os especialistas concordam que o impacto será mais significativo a nível estadual, com os governadores a desempenharem um papel decisivo. A democrata Keisha Lance Bottoms, recentemente eleita governadora da Geórgia, «defendeu um congelamento temporário, à escala estadual, da construção de novos centros de dados, bem como medidas para assegurar que os grandes consumidores suportem os custos associados às suas infraestruturas», recordou Stephen Innes, analista da SPI Asset Management.
Também Amy Acton, eleita governadora do Ohio, prometeu impor regras mais rigorosas ao setor. A mensagem é clara e cruza estados com realidades muito diferentes: quem paga a fatura da IA não pode continuar a ser o cidadão comum.
Uma lição para além dos EUA
O debate americano chega num momento em que a corrida à inteligência artificial se intensifica em todo o mundo, com empresas a exigirem energia barata, terrenos e isenções fiscais para instalar os seus centros de dados. A resposta dos eleitores do Texas, da Geórgia e do Ohio mostra que existe outra via: exigir que as empresas paguem os custos das infraestruturas que consomem e que as comunidades tenham voz na decisão.
Para os movimentos sociais e os trabalhadores que vivem nas sombras destes gigantes digitais, o resultado das intercalares representa uma abertura. A batalha sobre a regulação da IA está apenas a começar, e o Congresso democrata terá agora de responder às expectativas criadas nas urnas.
Perguntas frequentes
O que mudou com a vitória democrata nas intercalares?
Os democratas conquistaram o controlo das duas câmaras do Congresso e venceram em estados como o Texas, a Geórgia e o Ohio, onde os novos governadores se comprometeram a impor mais restrições à construção de centros de dados.
Porque é que Elon Musk fala de centros de dados no espaço?
Musk ironizou sobre a derrota dos candidatos que financiou e sugeriu que «os centros de dados no espaço parecem agora particularmente atraentes», numa alusão à possibilidade de fugir à regulação terrestre.
Que peso tem o Texas na procura de energia da IA?
Segundo estimativas da Bloom Energy, o Texas deverá concentrar, em 2028, cerca de 30% da procura nacional de energia elétrica destinada à inteligência artificial.
