Falar de disfunção erétil continua a ser tabu em muitas casas operárias portuguesas. Mas, segundo um artigo de SIC Notícias publicado a 1 de novembro de 2026, o problema é muito mais do que uma questão de saúde sexual: pode ser o primeiro sinal de diabetes, doenças cardiovasculares ou outras patologias graves que, se apanhadas cedo, evitam anos de sofrimento.
Quem o explica é Tiago Rodrigues, urologista e diretor da unidade de urologia do Hospital Cruz Vermelha. E a sua mensagem é clara: a disfunção erétil é um problema médico, não uma falha pessoal. Quanto mais cedo se fala, mais opções existem.
O que é a disfunção erétil e quando é que se torna um problema clínico
A disfunção erétil é a incapacidade persistente de obter ou manter uma ereção suficiente para uma relação sexual satisfatória. Clinicamente, só se fala de disfunção erétil quando o problema se repete no tempo e interfere com a qualidade de vida do homem e do casal. Não é o episódio ocasional depois de um dia exaustivo de trabalho por turnos ou de uma noite mal dormida.
A condição é muito comum e aumenta com a idade, mas não é exclusiva dos homens mais velhos. Pode surgir a partir dos 40 anos e torna-se mais frequente após os 50-60. Muitos homens jovens também apresentam o problema, sobretudo associado a stress, ansiedade ou estilos de vida pouco saudáveis, realidades que fazem parte do quotidiano de quem vive com salários apertados e precariedade.
Porque é que a disfunção erétil pode ser um sinal de alarme
As causas são variadas e muitas vezes combinadas: problemas vasculares, diabetes, hipertensão, colesterol elevado, alterações hormonais, doenças neurológicas, doenças da próstata e respetivos tratamentos, e fatores psicológicos como ansiedade ou depressão.
O ponto essencial, sublinhou o urologista, é que a disfunção erétil é muitas vezes sintoma de outro problema de saúde e pode funcionar como sinal de alarme. A ereção é um reflexo da saúde geral. Um homem que começa a falhar sexualmente pode estar perante alterações metabólicas, hormonais ou circulatórias que merecem investigação, como lembra também o andrologista Guilherme Braga.
Há diferenças úteis entre causas físicas e psicológicas. As físicas tendem a surgir de forma progressiva e persistente. As psicológicas aparecem muitas vezes de forma súbita, associadas a situações específicas. Na prática clínica, a maioria dos homens tem uma combinação de ambas, e é por isso que a avaliação médica é essencial.
Diagnóstico e tratamentos disponíveis no Serviço Nacional de Saúde e no setor privado
O diagnóstico começa com uma boa história clínica, sem julgamentos. Inclui avaliação de doenças associadas, análises hormonais se necessário e avaliação urológica, incluindo a próstata. Hoje olhamos para o homem de forma global, não apenas para o sintoma, defendeu Rodrigues.
As opções de tratamento são várias e adaptadas a cada caso: medicação oral, terapêuticas hormonais quando indicadas, dispositivos ou tratamentos locais como ondas de choque, e cirurgia em casos selecionados, como próteses penianas. No caso das doenças da próstata, as novas tecnologias permitem tratar a doença preservando a função sexual, algo que não era possível há poucos anos.
Sobre a testosterona, importa um aviso: a reposição hormonal exige sintomas compatíveis e confirmação laboratorial, e não é um tratamento universal para a dificuldade de ereção, como explica a andrologia especializada. A deficiência de testosterona pode afetar o desejo sexual em alguns homens, e alterações da prolactina e da tireoide também podem participar no quadro.
Estilo de vida: o que a saúde pública devia dizer mais alto
As mudanças no estilo de vida têm impacto direto na função erétil: atividade física regular, alimentação equilibrada, controlo do peso, deixar de fumar e reduzir o álcool. Acrescem sono adequado, gestão do stress e acompanhamento médico regular, sobretudo da próstata a partir de determinada idade.
Há aqui uma questão de justiça social que não pode ser ignorada. Quem trabalha horas em excesso, come mal por falta de tempo e de dinheiro, e vive sob pressão constante está mais exposto a todos estes fatores de risco. A prevenção não pode depender apenas da força de vontade individual; precisa de políticas públicas que garantam acesso real ao cuidados de saúde, tempos de trabalho decentes e apoio psicológico no sistema público.
O peso emocional e o papel do casal
A disfunção erétil afeta profundamente a autoestima e os relacionamentos. Muitos homens sentem perda de confiança, vergonha e isolamento emocional. Quando não é falada, pode criar distância no casal, mesmo quando existe afeto.
É por isso que o parceiro ou a parceira deve participar no tratamento sempre que possível. A participação melhora os resultados e reduz a ansiedade. A disfunção erétil não é um problema individual, é um tema do casal, defendeu o urologista.
Está indicada ajuda psicológica ou terapia sexual quando existe ansiedade, medo, bloqueio emocional ou impacto significativo na relação. Muitas vezes, a combinação de tratamento médico e apoio psicológico é a abordagem mais eficaz, uma lógica que outros especialistas também adotam, acompanhando sintomas urinários e falha de ereção no mesmo percurso clínico.
Dá-se conta da disfunção erétil com o tempo?
É possível prevenir?
Em muitos casos, sim. Controlar fatores de risco, cuidar da saúde cardiovascular e optar por tratamentos urológicos que preservem a função sexual fazem toda a diferença, segundo Tiago Rodrigues.
E quem vai ser operado à próstata?
É fundamental maximizar a preservação da vida sexual logo na primeira cirurgia, seja para próstata aumentada ou cancro da próstata. Tentar corrigir depois é muito mais complicado, avisou o médico.
E se tenho vergonha de ir ao médico?
A mensagem de Rodrigues vai direta ao assunto: a disfunção erétil é um problema médico, não uma falha pessoal. Hoje consegue-se tratar, e muitas vezes prevenir, sem comprometer a identidade, a autoestima e a vida sexual do homem.
