Uma nova geração de artesãos e artistas está a pegar em saberes que quase se perdiam e a dá-los a conhecer ao país, com novas formas, novos materiais e novas histórias. É o que relata o Observador na revista DDD, que este fim de semana de novembro de 2026 traça o retrato de cinco projetos que vão dos tapetes tecidos à mão no Norte às flores de papel de Campo Maior.
Não se trata de museus nem de nostalgia. Trata-se de gente que trabalha com as mãos, que vive do que produz e que prova que a tradição só sobrevive quando alguém a agarra e a faz servir o presente. Em tempos em que tudo se compra importado e descartável, estes ofícios são também uma resistência.
Do tear de Viana aos tapetes que são arte
Célia Esteves nasceu em Viana do Castelo, cercada de bordados, trajes típicos e um tear em casa. Aos 44 anos, depois de uma licenciatura em Design de Comunicação e um mestrado em Desenho e Técnicas de Impressão, voltou ao que a marcou. Em 2012 criou o GUR, marca que transforma desenhos de artistas e ilustradores em tapetes únicos, feitos em teares tradicionais de madeira por tecedeiras de Viana, Barcelos e do Porto.
“Gosto das possibilidades, de poder fazer à mão, de ver a produção da peça a acontecer no tear”, descreve a designer. Cada tapete demora cerca de quatro semanas a fazer e nunca há dois iguais. O nome da marca é a palavra rug escrita ao contrário, e é isso mesmo: o tapete virado do avesso, com outra cara.
Cerâmica alentejana com humor e memória
Em Lisboa, na Ajuda, Carlos Manuel Gonçalves trocou a publicidade, o turismo e a produção de teatro pela cerâmica durante a pandemia. Nasceu numa aldeia do distrito de Beja e é desse Alentejo que tira as peças: figuras cheias de caráter, pratos com frases e nomes tirados de dizeres populares como “Cor de burro quando foge” ou “Pescadinha de rabo na boca”.
“O meu trabalho conta as minhas histórias. Tenho peças com nomes de familiares, de animais que tive”, diz. Comparam-no a Rosa Ramalho ou ao figurado de Barcelos, mas ele faz questões de ir mais longe, com jarros cheios de “Noção” e figuras que brincam com tabus. “Enquanto incomodar algumas pessoas, vou continuar”, avisa, com troca de riso.
Design que junta o artesão e a indústria
No Porto, Sofia de Francesco, de 30 anos, cresceu entre as pinturas e esculturas dos avós e hoje trabalha no estúdio da família. Fez Design de Produto, passou por uma empresa como desenhadora técnica, mas queria mais: “Não queria fazer apenas parte do conceito e da idealização do produto. Queria também pôr as mãos na massa”.
Em 2024 concorreu à Lisboa Design Week com o banco B1, pensado para ligar o designer, a indústria e o artesão. Desenvolveu ainda a paper derm, técnica que transforma papel reciclado de caixas de ovos em candeeiros e biombos. O reaproveitamento de materiais, diz, está no centro do seu trabalho, tal como o contacto direto com marceneiros e carpinteiros.
Fibras da serra contra a especulação
Milena Kalte tem 34 anos, é alemã e vive numa cabana de madeira na serra de Sintra, sem água nem eletricidade. Veio para Coimbra estudar antropologia e aprendeu as técnicas do esparto num curso em Alte, no Algarve. Quando as viagens para apanhar a matéria-prima se tornaram um contrassenso, pôs-se a testar plantas da própria serra: bracejo, junco, espadana, silvas e urtigas.
Do imaginário popular saíram as suas máscaras de fibras, e da lendária Zorra Berradeira nasceu a Zorra Atadeira, feita de Linho da Nova Zelândia colhido em Sintra. A criatura é também um ato político: participa, de forma simbólica, na luta contra a desflorestação e a pressão imobiliária sobre o Parque Natural da Serra de Sintra.
As flores de Campo Maior chegaram a Paris e Nova Iorque
As Festas do Povo de Campo Maior, com as suas flores de papel, são Património Cultural Imaterial da Humanidade. Mas fora da festa, era impossível comprar essas flores. Foi essa a pergunta que Rita Nabeiro fez em 2015, e daí nasceu, em 2025, a marca doPovo, que trabalha com mulheres idosas da Associação Coração Delta, guardiãs da técnica, através da iniciativa Tempo Para Dar. Todas as receitas revertem para a associação.
O primeiro projeto juntou a Oficina Astolfi, em Lisboa, à marca internacional L'Objet. Mais de uma dezena de artesãs produziu flores à mão durante três meses, e o resultado viajou até às montras de Paris, Londres e Nova Iorque. “Artesania ancestral e design intemporal”, resume Rita Nabeiro.
Porque é que esta reinvenção importa
A ideia de que a tradição é coisa parada é, ela própria, uma invenção. Como lembra a Wikipédia sobre o tradicionalismo gaúcho, o movimento que ressuscitou essas práticas no sul do Brasil, em 1948, partiu do mesmo princípio: era necessário reinventar, porque muito já se tinha perdido. Também o Diário de Notícias notou, numa crónica recente, que tradições como o nosso Halloween caseiro nascem muitas vezes da pobreza extrema, e não de rituais iluminados; as pessoas davam o que tinham em casa. A tradição é isso: a marca de como vivia e resistia quem não tinha quase nada.
Por isso, quando estes cinco projetos põem mãos novas em saberes velhos, não estão a trair nada. Estão a garantir que o tear continue a bater, que o barro continue a moldar figuras e que as mulheres de Campo Maior continuem a ter quem valorize o que as suas mãos sabem fazer. E, no meio disso, a criar trabalho, rendimento e dignidade em territórios que o país teima em abandonar.
Perguntas frequentes
O que é o projeto GUR?
É uma marca criada por Célia Esteves em 2012 que transforma desenhos de artistas em tapetes únicos, tecidos à mão em teares tradicionais de madeira, por tecedeiras de Viana, Barcelos e do Porto.
Quem faz as flores de papel da marca doPovo?
As flores são feitas à mão por mulheres idosas de Campo Maior, reunidas pela iniciativa Tempo Para Dar, da Associação Coração Delta, e as receitas revertem na totalidade para a associação.
O que é a Zorra Atadeira?
É uma criatura de fibras criada por Milena Kalte a partir da lenda da Zorra Berradeira, feita com Linho da Nova Zelândia colhido na serra de Sintra, e que serve de símbolo na luta contra a desflorestação e a pressão imobiliária no parque natural.
