Os Prémios ANMP de Jornalismo e Poder Local distinguiram este ano reportagens que colocaram no centro do debate público o despovoamento do interior, os sem-abrigo e as aldeias esquecidas. O júri da 12.ª edição, atribuída pela Associação Nacional de Municípios Portugueses, anunciou as distinções a 4 de novembro de 2026, reconhecendo trabalhos publicados na imprensa, rádio, televisão e fotojornalismo.
A menção honrosa na categoria de Imprensa foi para a reportagem A nova vida da Vila Velha, assinada por Raquel Albuquerque no Jornal Expresso, com fotografias de Matilde Fieschi e infografia de Sofia Miguel Rosa. O trabalho conta como Vila Velha de Ródão, durante mais de 25 anos o concelho mais envelhecido do país, conseguiu atrair famílias, travar o abandono das aldeias e até reabrir escolas. Segundo o Jornal Expresso, a jornalista partiu de um indicador do INE, o número de crianças com menos de 15 anos, para contar a história de um concelho do interior que viu a sua população aumentar.
Uma história que interessa a quem vive fora dos grandes centros
É difícil exagerar a importância deste tipo de jornalismo. Durante décadas, o interior de Portugal foi tratado como um problema estatístico: taxas de envelhecimento, encerramento de serviços, escolas que fecham, hospitais sem médicos. A reportagem de Raquel Albuquerque inverte a lógica e mostra o contrário, que é possível reverter a sangria quando há vontade política e investimento real nas comunidades locais. Reabrir escolas num concelho que era o mais envelhecido do país não é um detalhe curioso, é a prova de que o despovoamento não é uma fatalidade.
Para quem vive nas aldeias do distrito de Castelo Branco ou em qualquer território de baixa densidade, a distinção chega com um sabor especial. Alguém contou a sua realidade com rigor e dados, e esse trabalho foi reconhecido a nível nacional.
Sem-abrigo em Coimbra ganhou o primeiro prémio
O primeiro prémio na categoria de Imprensa foi para Sem abrigo: a luta pela sobrevivência não tem que ser solitária, da jornalista Patrícia Cruz Almeida, editora do jornal As Beiras, com fotografia de Pedro Ramos. A reportagem acompanha as equipas de rua que prestam apoio social em Coimbra e revela a história invisível das pessoas que dormem na rua.
Num momento em que o jornalismo atravessa tempos exigentes, esta distinção tem um significado especial, reagiu a jornalista nas redes sociais. É uma profissão a que dediquei grande parte da minha vida, com a convicção de que contar histórias com rigor, humanidade e proximidade continua a fazer sentido, escreveu.
Num país onde o sem-abrismo cresce ano após ano e onde as respostas públicas continuam aquém do necessário, ver este tema levar o primeiro prémio diz muito sobre a agenda que o jornalismo local consegue pautar.
Água, aldeias de xisto e segurança rural premiados
Também na imprensa foi distinguido com menção honrosa A água das catacumbas de Coimbra, do jornalista Rafael Vieira, publicado no Jornal Diário de Coimbra.
Na rádio, os prémios foram para a Antena 1. Horácio Antunes venceu com Aldeias da Serra da Lousã, reportagem sobre o projeto de recuperação da paisagem de cinco aldeias tradicionais de xisto na Lousã. Diana Craveiro recebeu a primeira menção honrosa com Freguesia mais segura, sobre um projeto de voluntariado que ajuda a proteger as pessoas mais vulneráveis aos incêndios rurais.
Em televisão, a série Castelos de Portugal, de Ricardo Venâncio com imagem de Paulo Fajardo, ambos da SIC, foi premiada. A série percorreu o país para dar a conhecer a história, a arquitetura e os segredos de fortificações, castelos, paços e torres medievais, de Barcelos a Mourão. A menção honrosa foi para Sem lugar para cuidar, do jornalista Filipe Pinto, com imagem de Soraia Maia e Tiago Costa e edição de imagem de Rui Rufino, da RTP.
Porque é que estes prémios importam
Os Prémios ANMP de Jornalismo e Poder Local regressaram em 2026, na 12.ª edição, e visam reconhecer o trabalho jornalístico sobre o poder local e a gestão municipal. É um prémio que fala diretamente ao quotidiano das pessoas: câmaras, juntas de freguesia, escolas, equipamentos sociais, territórios.
Numa altura em que a informação local perde recursos e as redações encolhem, premiar reportagens sobre o interior, os sem-abrigo e aldeias de xisto é também um sinal político. Estes temas continuam a merecer investigação, tempo e meios. E continuam a ser, para as comunidades que vivem essa realidade, a diferença entre ser invisível e ser ouvido.
Perguntas frequentes
Quem ganhou os Prémios ANMP 2026 na categoria de Imprensa?
O primeiro prémio foi para Patrícia Cruz Almeida, do jornal As Beiras, com a reportagem sobre os sem-abrigo de Coimbra. A menção honrosa foi para Raquel Albuquerque, do Jornal Expresso, com A nova vida da Vila Velha.
O que mostra a reportagem sobre Vila Velha de Ródão?
Mostra como o concelho mais envelhecido do país durante mais de 25 anos conseguiu atrair famílias, travar o abandono das aldeias e reabrir escolas.
Quem atribui os Prémios ANMP de Jornalismo?
A Associação Nacional de Municípios Portugueses, nas categorias de Imprensa, Rádio, Televisão e Fotojornismo.
