A crise da habitação em Portugal agravou-se durante quase uma década de governação socialista, entre 2015 e 2024, e a factura chegou agora às famílias, que continuam sem resposta concreta para a pergunta que se repete no debate público: onde estão as casas?
É este o diagnóstico feito pelo Observador numa análise publicada a 22 de outubro de 2026, que responsabiliza António Costa e a Geringonça por não terem contrariado, com a eficácia necessária, uma emergência social que cresceu sob os seus olhos.
Uma geração sem tecto
Os números são conhecidos dos que lutam todos os meses para pagar a renda. Segundo dados citados pela SIC, entre 2015 e 2025 os preços da habitação dispararam cerca de 164% e as rendas subiram 68%. Uma geração inteira descobriu que trabalhar já não chega para ter casa. Procuram quartos sobrelotados, dividem apartamentos, afastam-se das cidades onde trabalham ou aceitam condições indignas.
O Observador é claro: a Geringonça não construiu casas, construiu uma desculpa. Não se trata de negar o que foi feito, programas, alterações legislativas, comunicados. Trata-se de perguntar se aquilo que foi feito resolveu o problema. A intenção não é o resultado, escreve o comentador do Observador, e a propaganda não é uma casa.
A burocracia que trava a construção
Uma das teses centrais da análise é que o Estado português reconhece que faltam casas, mas mantém um sistema administrativo que torna a sua construção lenta, cara e imprevisível. Mudam os ministros, mudam os programas, mudam as plataformas digitais, mas os procedimentos permanecem e o cidadão continua à espera.
O Diário de Notícias defende que para resolver a crise é preciso voltar a construir, o que exige capital, menos burocracia e colaboração entre bancos, promotores e autarquias. Já os comentadores ouvidos pela SIC Notícias sublinham que a partir de 2010 e 2011 Portugal deixou de construir casas, abrindo um buraco que nunca foi tapado.
Cada ano perdido significa menos casas disponíveis, mais pressão sobre as existentes e mais famílias afastadas dos centros urbanos. É a escassez, alimentada por anos de imobilismo, que valoriza as casas que já existem e enriquece quem as detém.
Partir o termómetro não baixa a febre
O Observador critica também a tentação de tratar os preços elevados como causa do problema em vez de sintoma. Limitar rendas, multiplicar apoios à compra, restringir investimento: nada disto faz aparecer casas. Partir o termómetro não faz baixar a febre, escreve.
Isto não significa abandonar quem não consegue pagar, avisa o autor. Significa o contrário: os apoios sociais são demasiado importantes para serem concebidos sem atenção aos seus efeitos. O Estado deve assegurar habitação social, proteger as famílias vulneráveis e combater abusos, mas deve também criar condições para construir, reabilitar, arrendar e mobilizar imóveis devolutos.
A esquerda descobriu a crise depois de sair do Governo?
Há uma ironia que o Observador não poupa à sua própria família política. Durante os anos de governação socialista, a crise foi-se agravando. Depois da saída de Costa, a habitação passou a ocupar ainda mais espaço na contestação pública, com protestos em vários pontos do país.
Os movimentos sociais têm todo o direito de denunciar a incapacidade do Governo actual, reconhece o analista. Quem não consegue pagar uma renda não tem obrigação de esperar por uma alternância para protestar. Mas a coerência exige memória: a crise não nasceu com a tomada de posse do novo Executivo, e a crítica ao presente não apaga as responsabilidades do passado.
Para quem está à esquerda, a lição é dura mas necessária. Não é aceitável administrar as consequências da escassez em vez de enfrentar os bloqueios. Não é aceitável confundir intervenção com eficácia, nem presumir que uma medida é boa porque parece defender os mais pobres. A política de habitação precisa de menos fé ideológica e mais avaliação dos resultados.
Culpar as andorinhas não resolve nada
Atribuir toda a crise aos Vistos Gold, ao alojamento local ou aos fundos imobiliários é, na expressão do Observador, a versão económica de culpar as andorinhas pelo mau tempo. Esses factores pressionaram segmentos do mercado, sobretudo em zonas turísticas, e merecem regulação proporcional. Mas proibir um uso não equivale a criar uma casa.
A imigração acrescenta procura e deve ser considerada no planeamento. Contudo, culpar quem chega não substitui a obrigação de preparar o país para a realidade demográfica. Tal como culpar os investidores não substitui a obrigação de criar condições para construir.
A liberdade de quem não pode escolher onde viver
A análise do Observador termina com uma reflexão que toca directamente as classes populares: a falta de habitação é uma forma silenciosa de perda de liberdade. Quem não consegue escolher onde viver fica condicionado na escolha do emprego, na constituição de uma família e até na possibilidade de abandonar uma situação de dependência, seja um casamento, um contrato ou um senhorio abusivo.
Uma sociedade que proclama direitos mas não garante condições mínimas para os exercer transforma a liberdade numa promessa formal. O direito à habitação é demasiado importante para ficar refém da propaganda de qualquer partido.
O Governo actual também terá de responder pelos seus resultados. O passado não absolve o presente, mas o presente não pode reescrever o passado. Portugal não precisa de mais uma guerra ideológica entre o Estado e o mercado: precisa de casas. Enquanto não aparecerem, continuaremos a voar contra o vidro, convencidos de que a próxima pancada será a que abre a janela.
Perguntas frequentes
Quanto subiram os preços da habitação em Portugal?
Entre 2015 e 2025, os preços da habitação subiram cerca de 164% e as rendas aumentaram 68%, segundo dados citados pela SIC.
Quando é que Portugal deixou de construir casas?
Segundo comentadores ouvidos pela SIC Notícias, a construção de habitação entrou em quebra a partir de 2010 e 2011, abrindo um défice de oferta que nunca foi recuperado.
Quem é responsável pela crise da habitação?
O Observador defende que a responsabilidade é distribuída, mas pesa sobretudo em quem governou durante mais tempo, como António Costa entre 2015 e 2024, e teve oportunidade de intervir sem o fazer com eficácia.
