Milhares de manifestantes desceram o Chiado até ao Rossio, em Lisboa, na tarde de sábado, 31 de outubro, no dia 14 da acampada pela habitação que resiste no coração da capital. O cortejo saiu do Largo de Camões pouco depois das 17h30, tarde demais para o horário anunciado, mas chegou a uma praça já preparada para receber mais uma noite de ocupação, agora com o chão marcado para montar um verdadeiro bairro de tendas.
O mote continua o mesmo: «Não temos casas, ficam as tendas». Depois de duas intervenções policiais que ficaram marcadas pelas cargas de bastão, a acampada decidiu responder com organização, criatividade e uma dose de humor que não esconde a raiva, segundo o relato do Jornal Expresso.
Uma exposição na calçada para não esquecer as barracas
Enquanto se montava o palco, os curiosos que espreitavam a praça deparavam-se com uma mostra improvisada em cima da calçada portuguesa. Cinco imagens gigantes, com mais de três metros por dois e meio, compostas de folhas A4, compunham a exposição de rua «Casas Sim, Barracas Não - Quem constrói a cidade?».
Quatro das imagens mostram bairros de lata de barracas de Lisboa ao longo dos últimos 50 anos. A imagem central retrata a manifestação que dá nome à exposição, aquela que desceu o Parque Eduardo VII em 1975. A mensagem é clara: quem constrói a cidade continua sem ter onde morar, meio século depois da Revolução.
Cantina popular e mercado de outono
Ao décimo quarto dia de presença no Rossio, tudo parece mais organizado. A lateral da estátua de D. Pedro IV, onde está inscrita a data de nascimento do rei, acolhe agora a cantina popular, uma espécie de refeitório que tem servido cerca de uma centena de refeições por dia, sempre a custo zero.
Quem atravessa o semáforo em direção à Praça da Figueira encontra um cartaz que indica o caminho para o «Mercado de Outono». No Rossio, funciona o «Mercado Imobiliário Jovem», uma resposta bem ao espírito da acampada.
Mas a grande novidade está no chão. Na metade da praça onde nos outros dias apenas se convivia ou dançava, fita adesiva marca agora retângulos que formam lotes para montar tendas. Há corredores paralelos e perpendiculares devidamente delimitados, com direções de circulação pensadas. A semelhança com a traça da baixa lisboeta não é por acaso: o objetivo é um «bairro» de tendas, e a necessidade de evacuar o espaço em segurança foi pensada de antemão.
A acampada voltou a montar tendas no Rossio depois de as ter visto destruídas pela polícia, e desta vez quer mostrar que veio para ficar, como recorda o DN.
A tenda do terror e os fantasmas de Salazar
Em dia de Halloween, o espaço da criançada está decorado a rigor. Na «tenda do terror», os fantasmas têm nomes: «Fascismo» e «Salazar». Três morcegos chamados «Pacote Laboral», «Lei do arrendamento» e «Fundos imobiliários» completam a assombração.
Há dois corpos sepultados que representam os «valores de abril». Nas lápides lê-se a data de nascimento, 25 de abril de 1974, e a de falecimento, 25 de outubro de 2026, o dia da última carga policial. Noutra lápide, a frase que resume o medo de uma geração: «RIP futuro. Crise Climática». Para os mais pequenos há guloseimas, autocolantes e pinturas faciais.
A ironia é fina, mas o recado sai afiado. Para quem cresceu a ouvir falar dos valores da Revolução de Abril, ver esses mesmos valores sepultados com data de falecimento marcada no dia de uma carga policial é uma imagem que não se esquece.
A cobra da especulação serpenteia no meio da multidão
Passavam quinze minutos das 18h quando as primeiras palavras de ordem começaram a ouvir-se vindas da Rua do Carmo. Três carrinhas da força de intervenção especial da PSP estavam posicionadas na zona onde a rua desemboca no Rossio, impedindo que o cordão humano passasse de forma uniforme. Vários manifestantes foram avançando à frente do grupo maior, de onde vinha o grito: «E viva a acampada a resistir».
Na dianteira vinha a «cobra da especulação», que serpenteava entre a multidão perseguindo e «comendo» casas, personificadas em manifestantes, numa simulação do clássico jogo snake. «Cuidado com os fundos imobiliários, eles comem tudo», avisavam os manifestantes à chegada do animal.
«Quisemos fazer algo diferente e que desse uma dimensão mais engraçada, mesmo tratando-se de um assunto muito sério», explicou ao Expresso uma das impulsionadoras da ideia, que passou à prática em poucos dias.
«Foi também uma forma de juntar as pessoas. Muita gente ficou curiosa e juntou-se a nós», afirmou a manifestante.
A manifestação, sob o mote «Não temos casas, ficam as tendas», voltou assim a encher as ruas de Lisboa, como noticiou a SIC Notícias, depois de duas intervenções policiais violentas, com bastonadas, que já tinham marcado os primeiros dias da acampada.
Quatorze dias depois, a pergunta continua sem resposta
O que começou com tendas improvisadas é hoje um espaço com cantina, mercado, programação cultural e um plano urbanístico desenhado com fita adesiva. A acampada do Rossio prova que, quando o Estado falha, são os próprios trabalhadores e moradores a organizar a resposta.
Enquanto o Governo não responde à crise da habitação com políticas de arrendamento acessíveis e controlo da especulação, as tendas continuam a ser a única casa que muitos conseguem ter. E, pelos vistos, já têm bairro, ruas e direções de circulação.
Perguntas frequentes
O que é a acampada do Rossio?
É uma ocupação permanente na praça do Rossio, em Lisboa, organizada por movimentos pela habitação, que no dia 31 de outubro completava 14 dias de presença contínua.
Porque é que os manifestantes usam o mote «Não temos casas, ficam as tendas»?
Porque pretendem denunciar a crise da habitação em Lisboa e as políticas de arrendamento e especulação imobiliária que empurram trabalhadores e moradores para fora da cidade.
O que é a cobra da especulação?
É uma figura criada pelos manifestantes que serpenteava entre a multidão «comendo» casas, personificadas por manifestantes, para representar de forma humorística a ação dos fundos imobiliários na cidade.
