Pelo menos 69 pessoas morreram na quarta-feira, dia 29 de outubro, no choque de dois comboios de alta velocidade em Urda, na província de Toledo, em Espanha, o segundo acidente ferroviário grave no país em menos de um ano, depois das 46 vítimas mortais de Adamuz, Córdova, em janeiro. O primeiro-ministro Pedro Sánchez classificou a situação como inaceitável e o país entrou em três dias de luto nacional, a semanas das eleições antecipadas de 29 de novembro.
“Não é aceitável que um país como Espanha sofra dois acidentes ferroviários de alta velocidade no mesmo ano”, disse Sánchez por duas vezes esta semana, segundo relata a Notícias ao Minuto. A frase, dita quase em tom de desabafo, resume o clima de um país em choque e de um governo encurralado entre o luto e a campanha.
Cento e quinze mortos em dez meses nas linhas de alta velocidade
Os números falam por si. Em janeiro, 46 pessoas morreram em Adamuz. Agora, em Urda, a conta sobe para pelo menos 69. Somados, são mais de cem mortos em comboios de alta velocidade em Espanha num único ano, a que se juntam notícias regulares de avarias e incidentes nas infraestruturas ferroviárias e noutras, como a rede elétrica, marcada pelo apagão de 2025.
Quando os comboios matam às dezenas, deixa de ser má sorte e passa a ser política. A questão que se impõe é simples: quem responde por um setor que deveria ser exemplo de segurança pública? Já não são apenas os partidos da oposição a exigir responsabilidades. Parceiros do PSOE na coligação que sustenta o Governo e forças da geringonça que reinvestiram Sánchez em 2023 pediram esta semana a assunção de “responsabilidades políticas”, incluindo a demissão do ministro dos Transportes.
A campanha parada, mas as críticas não
A tragédia chegou no pior momento para a classe política espanhola: em plena pré-campanha para as legislativas antecipadas de 29 de novembro. A generalidade dos partidos, com a exceção do Vox de extrema direita, cancelou a agenda pública até pelo menos este fim de semana. As direções dos principais partidos, citadas pela imprensa espanhola, reconhecem que, para além do respeito pelo luto, é preciso agora “recalcular estratégias e agendas”.
As eleições foram convocadas a 5 de outubro por Sánchez, líder do PSOE, no meio de protestos nas ruas pela crise da habitação e depois de a direita ter chumbado no parlamento decretos do Governo com medidas para esta área. Durante dois meses, a imigração e a entrada de mais de 70.000 pessoas em 24 horas em Ceuta dominaram o debate. Depois, os focos mudaram para a habitação, e Sánchez antecipou as eleições.
A escolha não era neutra. A habitação “tem um quadro mais favorável para a esquerda”, nas palavras do politólogo Pablo Simón, professor da Universidade Carlos III de Madrid e autor do estudo “A habitação como fratura política”, publicado no início de outubro. A imigração, essa, favorece a direita, em Espanha como no resto da Europa.
O que a tragédia revela sobre as prioridades
Há uma ironia amarga nesta história. Um governo que se apresentava como bastião do Estado social viu a campanha interrompida por uma tragédia que toca exatamente no nervo do que a esquerda deveria defender: o serviço público, a segurança coletiva, o investimento no que é de todos.
“A campanha eleitoral seguia por caminhos frívolos, até que outra tragédia nos lembrou para que serve votar. Enquanto alguns se dedicavam à virtualização política, falando-nos de partidos úteis, de jogadas de mestre ou de como conseguir mais lugares fundindo-se numa mesma candidatura eleitoral, a realidade bateu à porta”, escreveu na sexta-feira a politóloga Estefania de Molina no jornal El País.
A frase dura, mas é difícil de contrariar. Quando as infraestruturas públicas falham, quem paga são sempre os mesmos: os trabalhadores que apanham o comboio de manhã, as famílias que não têm alternativa, os que não podem escolher. Um acidente ferroviário não é um acaso isolado; é o resultado de escolhas, de manutenção adiada, de orçamentos que apertam onde não se vê.
Sánchez, entre o desgaste e a janela que se fechou
Pedro Sánchez governa desde 2018 e chega a estas eleições desgastado. Vários casos confirmados e suspeitos de corrupção envolvendo pessoas próximas, uma paralisia legislativa decorrente da dependência de uma coligação de oito partidos que o impediu de apresentar uma única proposta de Orçamento do Estado desde 2022, e as críticas à atuação em Ceuta pesavam já sobre o líder socialista. A habitação parecia ser “uma janela de oportunidade”, como coincidiram politólogos, analistas e meios de comunicação.
Urda pode ter fechado essa janela. Com dois acidentes com mais de cem mortos num ano, o PSOE voltou a ficar sob críticas generalizadas, e a discussão sobre a gestão das infraestruturas públicas tende a ocupar o espaço que a habitação devia ter.
As sondagens mais recentes dão o Partido Popular como partido mais votado a 29 de novembro, mas sem maioria absoluta, que só seria possível com uma aliança com o Vox. O PSOE surgiria em segundo, a seis pontos percentuais, segundo a média das sondagens. Um cenário em que a direita de Feijóo e a extrema direita de Abascal podem chegar ao poder com a ajuda de uma tragédia que expôs as fragilidades do Estado.
As perguntas que ficam
O que aconteceu em Urda?
Dois comboios de alta velocidade chocaram na quarta-feira em Urda, Toledo, causando pelo menos 69 mortos, no segundo acidente ferroviário grave em Espanha neste ano, depois do de Adamuz, em janeiro, com 46 vítimas mortais.
Quem pediu responsabilidades políticas?
Além das forças da oposição, parceiros do PSOE na coligação governamental e partidos da geringonça que reinvestiram Sánchez em 2023 exigiram esta semana responsabilidades políticas, incluindo a demissão do ministro dos Transportes.
Quando são as eleições em Espanha?
As legislativas antecipadas realizam-se a 29 de novembro, depois de Sánchez as ter convocado a 5 de outubro, no contexto dos protestos pela crise da habitação e do chumbo parlamentar dos decretos sobre esta matéria pela direita.
Quem lidera as sondagens?
O Partido Popular lidera as intenções de voto, sem maioria absoluta, seguido do PSOE a seis pontos percentuais, segundo a média das sondagens mais recentes.
