Yves Saint Laurent: o estilista que deu o poder às mulheres, não a moda
Faria 90 anos a 1 de agosto, mas o legado de Yves Saint Laurent continua a ecoar nas ruas, nos ateliers e nas lutas das mulheres. O designer que nasceu em Oran, na Argélia, e que aos 21 anos já comandava a casa Dior, não se limitou a coser vestidos. Ele reescreveu a imagem da mulher, quebrou os códigos entre o feminino e o masculino e, acima de tudo, devolveu-lhes o poder. Não é por acaso que o seu companheiro de vida, Pierre Bergé, disse: 'A Chanel deu a liberdade às mulheres, Yves Saint Laurent deu-lhes o poder'.
Numa altura em que a moda se rende ao dinheiro e ao marketing, vale a pena olhar para trás e ver como um homem magro, tímido e de óculos grossos transformou o guarda-roupa feminino num campo de batalha social. O estilista e figurinista português José António Tenente ajuda-nos a perceber esse percurso.
Como é que Yves Saint Laurent empoderou as mulheres?
Segundo Tenente, o que hoje se chama 'empoderamento feminino' já estava no trabalho de Saint Laurent desde o final dos anos 60. 'Através da força das silhuetas, na quebra dos códigos entre o feminino e o masculino, no arrojo da exposição do corpo', explica. As suas peças icónicas, como o smoking feminino, as transparências ousadas e os casacos safari, não eram apenas moda. Eram declarações políticas. 'As declinações do smoking masculino e a liberdade nas transparências deram origem a imagens muito poderosas de mulheres', acrescenta.
De Oran a Paris: a ascensão de um génio
Yves Saint Laurent cresceu entre revistas de moda como a Vogue e a L'Illustration, que a sua mãe, Lucienne, consumia. Aos 17 anos, ganhou um concurso internacional de design e foi parar à Vogue, que o mostrou a Christian Dior. A morte de Dior, em 1957, fez dele o mais jovem estilista de sempre a liderar uma casa de luxo. A sua primeira coleção, 'Trapèze', em 1958, rompeu com a rigidez do 'New Look' do pós-guerra e trouxe formas soltas, tecidos leves e, acima de tudo, liberdade de movimentos.
Mas 1960 foi um ano difícil. YSL foi convocado para a guerra na Argélia, sofreu uma crise de saúde mental e foi despedido da Dior. Foi então que Pierre Bergé o resgatou. Juntos, em 1962, fundaram a insígnia YSL, que se tornou incontornável em Paris e no mundo.
Porque é que YSL foi um pioneiro do prêt-à-porter?
Saint Laurent queria chegar a mais mulheres, não apenas à elite da alta-costura. Em 1966, lançou a moda prêt-à-porter, uma revolução que democratizou o acesso à moda. 'A vontade de chegar a um maior número de mulheres fá-lo um pioneiro', recorda Tenente. Além disso, expandiu o seu trabalho para acessórios, sapatos, óculos e perfumes, criando uma imagem completa da mulher. 'O entendimento que o seu trabalho se estenderia a toda a imagem da mulher, num universo alargado', sublinha o designer português.
O legado que resiste ao tempo e ao marketing
YSL revolucionou com peças como o vestido Mondrian, o casaco safari, o trench coat e o macacão feminino. Em 1999, a insígnia foi vendida à Gucci por mil milhões de dólares, mas Saint Laurent manteve-se ligado à alta-costura até se retirar em 2002. Morreu seis anos depois, em Paris, com um tumor cerebral que lhe foi escondido. Pierre Bergé revelou mais tarde: 'Acho que nasceu com depressão'.
Bergé disse ainda que, se fosse vivo, Yves Saint Laurent 'odiaria a moda agora, é tudo uma questão de dinheiro e marketing. Nunca se fala de talento, apenas de vendas'. Tenente concorda: 'A rapidez, a profusão e a voracidade são inimigas da perfeição'. Mas sublinha que o atual diretor artístico da marca, Anthony Vaccarello, tem sabido reinterpretar o legado e explorar as características mais relevantes do estilo YSL.
Num mundo onde a moda se vende como fast food, o exemplo de Yves Saint Laurent lembra-nos que a elegância e a intemporalidade ainda têm muito a dizer. E que o poder das mulheres não se compra numa loja.