Jorge Palma e o disco que nasceu da falta de dinheiro: a história de «Só»
Há álbuns que nascem da abundância, outros da necessidade. «Só», de Jorge Palma, nasceu da falta de orçamento, da escassez que a indústria musical sempre soube impor aos artistas. Gravado em 1991, num estúdio prestes a fechar portas, tornou-se uma das obras mais importantes da música portuguesa. Vinte e cinco anos depois, Palma celebra-o ao vivo, num gesto de resistência e de memória.
Um disco feito na penumbra, com um piano de luxo e três amigos
O cenário era quase cinematográfico. Uma luz ténue, um Steinway de concerto, cinco microfones e silêncio. Foi assim que Jorge Palma entrou no antigo estúdio da Valentim de Carvalho, em Paço d'Arcos, num outono de 1991. O mítico espaço, que já tinha recebido as grandes orquestras do cinema português dos anos 40, abria-se pela última vez para um único homem e o seu piano.
Palma não estava sozinho, no entanto. Consigo estavam dois amigos: o engenheiro de som José Manuel Fortes e o produtor Francis, ex-guitarrista dos Xutos & Pontapés. Três homens, uma missão e poucos dias para a cumprir, fingindo que não havia pressa.
Quando a falta de dinheiro decide a arte
A génese de «Só» não foi romântica. Foi económica. Tozé Brito, então diretor de Artistas e Repertório da Polygram, recorda o momento delicado: «O Jorge ainda não era grande vendedor de discos, tinha um público fiel, mas não chegava logo a disco de ouro. Antes do 'Só', estávamos numa encruzilhada: não sabíamos o que fazer com ele.»
A juntar a isso, não havia verba para grandes produções. A solução proposta por Tozé Brito foi simples e arrojada: «Não posso mandar-te para estúdio com uma orquestra. Porque é que não gravas um álbum com as tuas grandes canções só contigo ao piano como se fosse um recital?»
Palma aceitou o desafio. Mas não aceitou um piano qualquer. Exigiu um Steinway de concerto, um dos melhores do mundo, alugado pela editora. A comparação do músico é certeira: «Quando se chega ao pé daquele bicho é como se fôssemos um condutor que gosta de guiar e está habituado a um Volkswagen, a quem dão a possibilidade de conduzir um Ferrari ou um Bentley.»
Gravar à uma: o desafio da espontaneidade
O método de trabalho era tão simples quanto exigente. Palma chegava ao estúdio, trocava dois dedos de conversa com Francis e Fortes e sentava-se ao piano, quase sempre sem partituras. A proposta de gravar tudo à uma, sem correções, foi do produtor. Palma avisou que seria difícil não dar uma nota ao lado, mas que valia a pena tentar.
O objetivo era fazer um disco autêntico, mesmo que isso significasse preservar uma ou outra imperfeição. «Detesto repetir muito, sou incapaz de estudar oito horas por dia, por exemplo. Ao fim de três começo a não render, não tenho pachorra e perco a espontaneidade», explica Palma.
As 15 canções escolhidas percorriam os primeiros álbuns do músico. Todas resistiam ao teste infalível de Tozé Brito: «Uma grande canção não deixa de o ser se for tocada apenas ao piano ou com uma guitarra. E as dele passavam todas essa prova.»
Um engenheiro de som que captava emoções, não apenas notas
José Manuel Fortes, considerado um dos melhores engenheiros de som da sua geração, aceitou o convite num momento difícil da sua vida. «Eu tinha ficado sem o Angel Studio porque um sócio meu fez umas vigarices. Deu-me papéis para eu assinar e eu não vi. Isso deixou-me desequilibrado e foi muito bom o Jorge Palma lembrar-se de mim», conta.
Para Fortes, o trabalho ia além da técnica. «Percebi que o meu trabalho não seria apenas captar som, mas sim emoções, que por acaso nos chegavam através do som da voz e do piano.» Gravar tudo em simultâneo deu ao álbum uma verdade rara: «Não gravámos uma coisa num dia em que o Jorge estava bem e outra num momento em que não estava.»
Francis, por seu lado, tinha preocupações mais práticas. «O piano tem uma pressão acústica enorme, tínhamos quatro microfones apontados para ele e um de ambiente. E depois havia o de voz, com o problema de ter o som do piano entrar por ali... O desafio técnico consistia em fazer as coisas conviver.»
Serões de trabalho, marisco e uma garrafa de uísque
O ambiente no estúdio era de camaradagem. Palma, recorda Fortes, enchia a sala de boa disposição. «Nem ele, nem eu nascemos para sofrer», diz. O trabalho seguia madrugada fora, na calma, com pausas para fumar, beber uma cerveja ou jantar.
Numa dessas noites, Palma levou os amigos a comer marisco ao restaurante Arcos, em Paço d'Arcos. «Paguei eu. O dinheiro tem dado para tudo, para levar uma vida ótima. Tenho uma grande sorte», reconhece o músico.
Foi também num desses serões que Carlos Maria Trindade, o novo diretor de Artistas e Repertório, apareceu pela primeira vez. Encontrou Palma ao piano, com uma luz baixinha e uma garrafa de uísque ao pé. «Riu-se muito quando me viu», lembra. A visita tornou-se diária, mas nunca interferiu no trabalho do trio.
Um disco que cresceu com o tempo, contra a lógica do mercado
Quando «Só» saiu, não vendeu milhares de discos. Venceu o Se7e de ouro e, em 2014, o Blitz considerou-o um dos 30 melhores álbuns de sempre em Portugal. O sucesso não foi imediato, mas o disco sobreviveu e cresceu, passando de geração em geração.
Palma sabe que «Só» «é considerado uma pérola» e isso reconforta-o. «Muita gente vem ter comigo para dizer: 'É o seu melhor álbum'.» Carlos Maria Trindade não tem dúvidas: é «o ex-libris da carreira dele».
Para Francis, o resultado era previsível. «Disse ao Jorge: 'Ó Palma, ainda te vais surpreender porque este vai ser um dos teus principais trabalhos.'»
O que resta de «Só»: memórias, partituras e concertos
Por ironia do destino, a fita original onde foi gravado o álbum já não existe. «O José Manuel Fortes contou-me que o mandaram apagar tudo e gravar por cima. Também não temos fotos, nem making of, nada», lamenta Palma. Ficaram apenas memórias.
Há algumas semanas, o músico foi remexer nos arquivos à procura das partituras originais para preparar os concertos de comemoração dos 25 anos do disco. Encontrou muito do que procurava, mas teve de ouvir e escrever de novo a partitura de «Jeremias, o fora da lei».
O repertório dos espetáculos está escolhido. Para além dos 15 temas de «Só», Palma levará ao Centro Cultural de Belém e à Casa da Música canções que escreveu antes e depois, e é provável que toque Paul Simon, Bob Dylan e Jacques Brel. Isto além dos três andamentos de Beethoven que estudou em miúdo. «São 17 ou 18 minutos. O pessoal que se aguente», diz, bem-humorado.
Uma coisa é certa: quando a luz incidir sobre a figura despenteada de Palma debruçada sobre o piano, Jorge estará «nervoso, como sempre». Os concertos acontecem dias 28 e 29 de novembro no CCB, em Lisboa, e a 1 e 3 de dezembro na Casa da Música, no Porto.
Perguntas frequentes sobre o álbum «Só» de Jorge Palma
Porque é que Jorge Palma gravou «Só» apenas ao piano?
O álbum nasceu da falta de orçamento da editora Polygram. Tozé Brito, então diretor de Artistas e Repertório, propôs que Palma gravasse as suas grandes canções apenas com piano e voz, como um recital, para contornar as limitações financeiras.
Quais são os temas mais conhecidos de «Só»?
O álbum reúne 15 canções, incluindo «Bairro do Amor», «Frágil», «Só», «Jeremias, o fora da lei», «Estrela do mar» e «Na terra dos sonhos».
Onde e quando acontecem os concertos dos 25 anos de «Só»?
Os concertos de comemoração acontecem nos dias 28 e 29 de novembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e a 1 e 3 de dezembro na Casa da Música, no Porto.