Vinhas velhas do Douro: um tesouro de 41 castas na Quinta Vale D. Maria
Na Quinta Vale D. Maria, em Ervedosa do Douro, há um património que resiste ao tempo e à pressão da produtividade. São 17 hectares de vinhas velhas, com mais de 40 anos, onde já foram identificadas 41 castas diferentes. Um universo raro, agora aberto a visitas com a nova Adega Expositiva Guardiã das Vinhas Velhas.
Rita Ferreira, coordenadora do enoturismo, explica que a quinta só entrou na Região Demarcada do Douro no tempo da rainha D. Maria I. As plantações são todas pós-filoxera, mas a história é de resistência. Enquanto muitos viticultores arrancaram vinhas antigas para plantar cepas novas, mais produtivas, Cristiano Van Zeller, que comprou a propriedade em 1996, fez o contrário. Teve a rebeldia de manter o património. Hoje, essa rebeldia é a identidade dos vinhos da casa.
O que define uma vinha velha no Douro?
Não é só a idade. A lei exige três condições: mais de 40 anos, plantação em field blend com pelo menos quatro castas por parcela e mais de cinco mil pés por hectare. Na Quinta Vale D. Maria, a média é de 60 anos, mas há videiras centenárias na Vinha do Rio, junto ao rio Torto.
Estas vinhas não são arrumadas. Faltam videiras aqui e ali, porque algumas vão morrendo e não são substituídas em massa. O trabalho é manual, feito por pessoas, porque tratores não entram nas fileiras. A vindima ainda se faz em duas ou três passagens, como antigamente.
Porque é que as vinhas velhas importam para o futuro?
Rita Ferreira sublinha: estas videiras já sobreviveram a pragas, a temperaturas extremas, a tudo. Têm raízes com mais de dez metros, que penetram no xisto à procura de água e nutrientes. São elas que nos podem ensinar a enfrentar as alterações climáticas.
Na adega, a pisa a pé continua a ser a regra, não por nostalgia, mas por qualidade. Os lagares de granito, os tonéis e as barricas contam a história de um vinho que não cede à pressão da produção em massa.
O que se pode visitar e provar?
A Adega Expositiva, com projeto do arquiteto Diogo Aguiar, abre as portas a quem quiser conhecer este património. Há três experiências principais:
- Masterclass Vinhas Velhas: três colheitas antigas mais o ano de 2022, por 60 a 80 euros.
- Prova Guardiões das Vinhas Velhas: inclui Vinhas Velhas, Vinha do Rio, Maria Helena Van Zeller Guedes e o Very Old Tawny Porto Colheita 1935, por 45 a 150 euros.
- Experiência exclusiva Vale D. Maria: visita guiada com prova de dois Portos, por 30 euros.
Há também o branco Vinha de Martim, de uma vinha com mais de 80 anos, em Murça, feita apenas de castas brancas. Uma raridade.
Como chegar à Quinta Vale D. Maria?
A quinta fica na EM502, em Ervedosa do Douro. Contactos: 938 516 075.
Num tempo em que se fala tanto em produtividade, esta quinta lembra que há outras formas de valorizar a terra. E que o passado, bem cuidado, pode ser o futuro.