Uma epidemia de Ébola causada pela variante Bundibugyo já provocou quase 5.000 mortes na República Democrática do Congo desde maio, e o médico português Jaime Nina considera que o vírus pode chegar a Portugal, mas diz que tal é pouco provável. A explicação, dada à agência Lusa e reportada pelo Observador esta terça-feira, tem tanto de científica como de social: o surto está no leste do Congo, longe da comunidade portuguesa que vive no oeste do país.
É possível. Não é provável, resume o especialista em infeciologia e medicina tropical. E as razões dizem muito sobre como as epidemias se movem no mundo real, feito de migrações, enterros e guerras esquecidas.
Porque é pouco provável que a estirpe Bundibugyo chegue a Portugal
Jamie Nina, professor jubilado do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, traçou o mapa à Lusa: a comunidade portuguesa no Congo é numerosa, talvez mais de 100 mil pessoas, mas está concentrada no Congo Ocidental, perto de Kinshasa, por afinidades históricas com Angola. O epicentro da epidemia fica no extremo oposto do imenso país, na província de Ituri, no leste.
É lá que, segundo o The Guardian, decorre o 17º surto de Ébola no Congo desde que o vírus foi identificado, e já é o maior e mais mortífero da história do país, com mais de 10.000 infeções registadas.
Casos em Portugal teriam destino traçado
Portugal não está de braços cruzados. Existe, pelo menos no papel, um sistema de encaminhamento dos casos: em Lisboa, um adulto suspeito iria para o Hospital Curry Cabral, uma criança para o Hospital da Estefânia, ambos com serviços de isolamento estrito.
O problema, sublinhou Jaime Nina, não é tanto o vírus chegar, mas o perfil da pessoa potencialmente infetada e o tipo de cuidados a que tenha acesso. Ou seja, a resposta à epidemia volta a ser, como quase sempre, uma questão de sistemas de saúde públicos e de quem pode ou não contar com eles.
Como se transmite o Ébola: morcegos, macacos e enterros
O Ébola é uma família de vírus, com seis espécies descritas até hoje, muito próximas do vírus de Marburgo, que provocou um grande surto no norte de Angola há cerca de 20 anos. Estes vírus vivem em animais, particularmente morcegos, e são zoonoses, infeções que saltam para os humanos.
A transmissão direta entre morcegos e pessoas é rara, porque há pouco contacto entre uns e outras. O habitual é uma cadeia de contágio: do morcego para um macaco, do macaco para um humano.
Há depois uma particularidade dura de aceitar: o Ébola transmite-se mesmo depois da morte. Em muitas etnias africanas, explicou o médico, é típico despedir-se do morto com um beijo ou com contactos muito próximos.
Claro que se o morto estiver há uma semana já não está contagioso, mas se for no próprio dia ou no dia seguinte à morte, ele pode estar contagioso e muitas vezes está.
Uma crise dentro de outra crise
A província de Ituri, epicentro da epidemia, é uma zona assolada pela cólera, pela malária, pelo Monkeypox e por conflitos armados que duram há décadas. É o retrato perfeito de uma crise dentro de outra crise, onde as doenças se atropelam e os sistemas de saúde, cronicamente subfinanciados, não dão conta do recado.
Jaime Nina alertou para o negligenciamento de outras doenças durante surtos de Ébola e recordou um episódio que devia fazer-nos pensar: na África Ocidental, os Médicos Sem Fronteiras fizeram em 2014 um estudo na Guiné-Conacri e na Serra Leoa, e descobriram que a maior causa de morte em ambos os países, no pico da epidemia, não foi o Ébola. Foi a malária.
Sem vacina, mas com lições da Covid-19 a aprender
Sobre a variante Bundibugyo, este é aparentemente o terceiro surto conhecido, ainda que de longe o maior. Aparentemente é muito semelhante no período de incubação, no quadro clínico e na taxa de mortalidade das outras estirpes, disse o especialista.
Para a variante Bundibugyo não existe atualmente vacina aprovada nem tratamento antiviral específico, como nota o Executive Digest, embora os cuidados médicos de suporte melhorem significativamente as hipóteses de sobrevivência. Testes de vacinas estão a decorrer e, segundo o UOL Notícias, os resultados devem ficar disponíveis dentro de três a seis meses.
Entretanto, no leste do Congo, a contagem de mortos continua a subir. E a lição que fica é a de sempre: as epidemias não escolhem ao acaso, escolhem os países pobres, as zonas de guerra e os sistemas de saúde que a austeridade global decidiu deixar ao abandono.
Quais são os sintomas da variante Bundibugyo?
Segundo Jaime Nina, a estirpe Bundibugyo é aparentemente muito semelhante às outras estirpes de Ébola no período de incubação, no quadro clínico e na taxa de mortalidade, calculada dividindo o número de mortes pelo número de casos.
Existe vacina contra a variante Bundibugyo?
Não. Não há vacina aprovada nem antiviral específico para esta variante, mas testes de vacinas estão em curso e os resultados são esperados entre três e seis meses, segundo reportagem da UOL Notícias.
Para onde iriam casos suspeitos de Ébola em Portugal?
Em Lisboa, os adultos seriam encaminhados para o Hospital Curry Cabral e as crianças para o Hospital da Estefânia, unidades que possuem serviços de isolamento estrito, segundo o sistema de encaminhamento descrito por Jaime Nina.
