A Praça D. João I, no Porto, amanheceu este domingo vazia, sem tendas nem manifestantes, depois de uma intervenção policial de madrugada que desmontou a acampada contra os custos da habitação, causou oito feridos, segundo a PSP, e oito detidos, já libertados.
Às 07:00, restava apenas um agente da PSP numa esquina e uma única tenda, a de Toni, um sem-abrigo que dormia na arcada de um prédio em frente. Foi o fim provisório de um acampamento que chegou a juntar mais de 50 tendas e centenas de pessoas decididas a não se calar sobre a crise da habitação.
O que aconteceu na madrugada de domingo
A tensão acumulou-se durante horas. Pelas 02:02, a Unidade Especial de Polícia da PSP avançou para a praça e começou a desmobilizar os manifestantes, que recusavam desmontar as tendas. Segundo dados da PSP avançados pelo Correio da Manhã, a operação causou oito feridos e oito detidos, que foram levados para a esquadra do Heroísmo.
Os números feridos divergem conforme a fonte. A organização do movimento pela habitação no Porto fala em 37 feridos, sete dos quais em estado grave. A PSP reconhece oito. Entre as duas versões ficam as escoriações, as contusões e a madrugada que os moradores da praça classificaram de agitada e violenta.
Os oito detidos foram libertados pelas 06:00 e serão presentes a tribunal na segunda-feira, confirmou Tiago Machado, advogado do movimento que promove os protestos.
Foi feio, foi feio
Toni, habitante da rua, assistiu a tudo da arcada onde se abrigava, com a tenda desmontada para não ser confundido com os manifestantes e perder o pouco que tem.
Foi feio, foi feio. Estava tudo pacífico, em clima de paz, mas a protestar, temos que protestar, e a polícia chegou e levou tudo à frente.
Em conversa com a agência Lusa, Toni descreveu a chegada dos agentes e o que se seguiu. Quem vive na rua conhece bem o peso de perder uma tenda, o único abrigo que resta a quem não tem casa num país onde o arrendamento se tornou inacessível para salários cada vez mais esmagados.
Pelas 07:00, o retrato da praça era desolador: sem cartazes, sem tendas, sem gente. Um agente da PSP saltitava de pé em pé, vigiando a praça, Toni e os carros que passavam. As carrinhas da polícia tinham ido embora, mas as viaturas da PSP continuavam a circular na zona, como o próprio Toni notou.
Marcha pacífica e assembleia decidiram voltar às tendas
A decisão de voltar a montar as tendas foi tomada numa assembleia popular ao final da tarde de sábado, que reuniu centenas de pessoas. Antes, milhares tinham marchado da Praça da Batalha até à Praça D. João I, de forma pacífica e sem incidentes registados, contra os custos da habitação.
No final da marcha, os manifestantes ficaram na praça, cantaram, gritaram palavras de ordem e deixaram um aviso claro.
Podem tentar silenciar-nos, mas nós vamos sempre voltar.
A mesma praça já tinha sido alvo de uma operação de desmontagem, como noticiou o Jornal de Notícias, que relatou a surpresa dos manifestantes com o ultimato da PSP e a vedação do espaço, com as tendas amontoadas. O SÁBADO também reportou a mobilização de um elevado número de agentes do corpo de intervenção para aquele desmantelamento.
Um movimento nascido a 10 de outubro
Os protestos contra a crise na habitação começaram no Porto a 10 de outubro, através de movimentos cívicos difundidos nas redes sociais, e expandiram-se depois a Lisboa e a outras cidades do país. O gatilho foi a aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade, que os movimentos consideram mais um empurrão para a financeirização da casa.
As reivindicações vão muito além daquilo que os grandes media costumam reduzir a um despejo de tendas. Os movimentos exigem medidas que respondam à crise no setor, o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, e defendem impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário.
É isto que incomoda: um movimento popular que junta a falta de casa à fome e à especulação, e que recusa sair das praças. Enquanto os governos respondem com bastões, centenas de pessoas respondem com assembleias, marchas e tendas que voltam a ser armadas no dia seguinte.
Na segunda-feira, os oito detidos vão a tribunal. Na Praça D. João I, por agora, vigia um polícia. Mas a promessa deixada no sábado à noite continua de pé: ninguém os cala.
Perguntas frequentes
O que aconteceu na Praça D. João I no Porto?
Na madrugada de domingo, 25 de outubro de 2026, a PSP desmontou a acampada contra os custos da habitação, causou oito feridos e deteve oito pessoas, que foram libertadas pelas 06:00 e serão presentes a tribunal na segunda-feira.
Quantos feridos houve na desmontagem da acampada?
A PSP reconheceu oito feridos, mas o movimento pela habitação no Porto conta 37 feridos, sete em estado grave.
Por que protestam os manifestantes pela habitação?
Exigem medidas contra a crise da habitação, o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, e impostos sobre os lucros extraordinários dos grandes bancos.
