Mais de uma centena de pessoas juntou-se este sábado, dia 25 de outubro, na Praça da Liberdade, em Faro, para condenar a ação da PSP que, de madrugada, desfez à bastonada e com cães as acampadas pelo direito à habitação em Lisboa e no Porto. Na capital algarvia, o protesto foi pacífico, mas a indignação transbordou.
A concentração, marcada a partir das 17:00 em frente à sede da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, foi convocada pelo movimento Algarve em Resistência, segundo reportou o Notícias ao Minuto. O coletivo já tinha condenado, em comunicado publicado durante a manhã, a „repressão policial“ contra as acampadas, sublinhando que perante manifestações pacíficas „a resposta do Estado foi o bastão“.
„Roubaram-nos a nossa democracia“
As cartazes não deixaram dúvidas sobre o estado de espírito. „O Brasil está a votar para manter a democracia, hoje roubaram-nos a nossa“, lia-se numa das tarjas. Noutra: „Não vais ter casa, não vais ter guita, apenas repressão infinita“.
Filipa Alves, ouvida pela Lusa durante a concentração, não se surpreendeu com a violência, mas com a sua dimensão.
„A repressão policial em si não foi novidade nem surpresa, porque ela já existiu em momentos anteriores das acampadas. O que é inadmissível foi a polícia vir ainda com mais força, com cães, e de uma forma concertada atacar os manifestantes no Porto e em Lisboa“, declarou.
Admitindo que a mobilização no Algarve „é muito diferente nesta zona do país, apesar de os problemas com a habitação serem enormes“, a ativista acrescentou que as pessoas „estão muito adormecidas ou muito desinteressadas, cada uma no seu canto“, um cenário que disse ser necessário combater.
Desmobilização começou cedo, mas o protesto cresceu
Ainda antes do horário agendado, às 16:30 decorria a poucos metros da CCDR uma assembleia popular com cerca de duas dezenas de pessoas, promovida pela Acampada de Faro, constatou a Lusa no local. Os manifestantes votavam propostas de medidas de ocupação, habitação, apoio social e custo de vida, discutidas nas assembleias realizadas nos últimos dias.
Aos poucos, dezenas de pessoas dirigiram-se ao passeio mais próximo da CCDR, fixando-se atrás de baias colocadas dias antes pela polícia. Só ao cabo de meia hora, já com mais de uma centena no local, o protesto se intensificou.
Depois de uma ativista ler um texto de „A Passarada“, o jornal autónomo da acampada distribuído em forma de panfleto, começaram os cânticos, ao som de fundo de uma gaita de foles.
„Montenegro, presta atenção, as tuas casas vão virar ocupação“, „Queremos casas para morar, e não para especular“, „Menos bastão, mais habitação“, gritou-se durante cerca de uma hora.
„Isto já não é sobre habitação, é a defesa da liberdade“
Afonso Coelho juntou-se à manifestação e foi claro sobre o que está em causa.
„Isto hoje já não é sobre habitação, é a defesa da liberdade e da democracia“ perante um problema, a falta de habitação, que está a criar „uma sociedade desigual“, frisou.
„Estamos a ver que o autoritarismo é a resposta a essa sociedade desigual. As pessoas que estão aqui ficaram chocadas com o que se passou ontem à noite. Estamos a levar da polícia todos os dias quando estamos a defender um direito básico“, criticou.
O que aconteceu em Lisboa e no Porto
A PSP dispersou de madrugada, à bastonada e com recurso a cães, as manifestações pelo direito à habitação nas duas maiores cidades do país, após mais de duas horas de tensão e ordens para que as pessoas saíssem e as tendas fossem retiradas. Os manifestantes não acataram, invocando o direito constitucional à manifestação.
Segundo a PSP, registaram-se 33 feridos, 27 em Lisboa e seis no Porto, e 31 detidos por desobediência, 25 na capital e seis na cidade invicta.
Este não foi o primeiro protesto na capital algarvia. No sábado anterior, cerca de uma centena de pessoas já tinha descido a Avenida 5 de Outubro até ao Largo da Pontinha, exatamente para onde estava agendada a manifestação de hoje, segundo o DiariOnline Região Sul. Naquela ocasião, os discursos combinaram críticas ao Governo com relatos pessoais sobre as dificuldades em suportar os custos da habitação, como noticiou o Postal. Em Faro, porém, ainda não houve montagem de tendas desde o início dos protestos a nível nacional.
Os protestos têm eco noutros pontos do país: de Braga a Aveiro, de Coimbra a Faro, centenas de pessoas queixam-se dos baixos salários e do aumento do preço das casas, criticando a inação dos sucessivos Governos desde os tempos da troika, como reportou a SIC Notícias. O movimento Algarve em Resistência, um grupo de coletivos que tem promovido manifestações pelo direito à habitação na região, já tinha mobilizado dezenas em protestos anteriores, recorda o Observador.
As reivindicações do movimento
Os manifestantes exigem a reversão da nova lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, um travão à aquisição de habitação por fundos imobiliários, o aumento da habitação pública, a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais e tetos „verdadeiramente acessíveis“ à renda.
A desmobilização começou cerca das 18:30, com um dos membros da Acampada de Faro a convidar os presentes para integrarem os grupos de trabalho formados nas assembleias populares. A luta, avisaram, continua.
Perguntas frequentes
Quantas pessoas protestaram em Faro?
Mais de 100 pessoas juntaram-se na Praça da Liberdade, em frente à CCDR do Algarve, a partir das 17:00 de sábado, 25 de outubro.
Quantos feridos e detidos houve na ação da PSP?
Segundo a PSP, houve 33 feridos, 27 em Lisboa e seis no Porto, e 31 detidos por desobediência, 25 em Lisboa e seis no Porto.
Quem organizou a concentração em Faro?
A concentração foi marcada pelo movimento Algarve em Resistência, um grupo de coletivos que tem promovido manifestações pelo direito à habitação na região.
