Quando o Estado falha: paliativos resistem às tempestades
No quarto individual que fica ao fundo do corredor na Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital Bernardino Lopes Oliveira, em Alcobaça, Sandro, de 44 anos, lutava contra um cancro do pulmão em estado avançado. Mesmo com a respiração dificultada pelo oxigénio no nariz, encontrou forças para falar da tempestade Kristin: "Não senti medo, senti conforto".
Esta é a história de como uma equipa de cuidados paliativos enfrentou uma catástrofe natural enquanto o Estado deixava as populações desprotegidas. É também o retrato de profissionais que, com recursos escassos, garantem dignidade aos mais vulneráveis quando tudo desaba.
A tempestade que revelou fragilidades
Na madrugada de 28 de janeiro, a depressão Kristin atingiu violentamente a Unidade de Cuidados Paliativos de Alcobaça. O telhado foi danificado, a água entrava pelos quartos, os circuitos elétricos ficaram em risco. Doze doentes acamados e dependentes tiveram de ser evacuados de urgência para o serviço de observação.
Isabel Semeão, enfermeira coordenadora, saiu de casa às 07h00 como sempre. Mas desta vez encontrou "metade das faixas da A8 cheias de árvores caídas e sem sinalização". Sem luz, sem comunicações, sem apoio do Estado. "Foi uma loucura", descreve.
Do outro lado do distrito, a médica diretora Sofia Durão enfrentava o mesmo cenário de abandono. Estradas cortadas, comunicações em baixo, mas a determinação de chegar aos doentes mantinha-se intacta.
Solidariedade contra o abandono
Enquanto as autoridades brilhavam pela ausência, a entreajuda funcionou. Uma enfermeira disponibilizou-se para visitar uma doente no seu próprio bairro. Equipas de paliativos de todo o país ofereceram apoio. O enfermeiro Luís Salgueiro cedeu imediatamente o espaço da urgência.
"Quem trabalha em paliativos é uma comunidade", explica Isabel Semeão. Uma comunidade que supre as falhas de um Estado ausente.
Mas houve situações que marcaram para sempre. Adriana Azevedo, do serviço social, recorda a situação mais difícil: "A impossibilidade de comunicar um óbito à família no próprio dia". Tiveram de ir pessoalmente a casa dos familiares assim que as estradas permitiram.
Dignidade até ao fim
Mesmo no caos, a equipa garantiu que os doentes mantivessem a sua dignidade. Elsa Sismeiro, de 58 anos, conseguiu votar antecipadamente para as presidenciais dentro da unidade. Morreu três dias depois, mas com o seu direito cívico respeitado.
Sandro, que elogiou a equipa até aos últimos dias, partiu "de forma muito tranquila" quatro dias após a entrevista, rodeado pela família. Para ele, estar na unidade foi "como se estivesse lá fora a apanhar sol".
Um serviço público que resiste
Os cuidados paliativos na região de Leiria existem há oito anos, acompanhando 2000 doentes só em 2025. Nasceram quando falar de paliativos ainda "assustava", consolidando-se pela confiança conquistada junto das populações.
Mas a tempestade revelou uma verdade incómoda: estas equipas são fundamentais em momentos de crise, mas continuam subfinanciadas e esquecidas pelas políticas públicas.
Como refere Isabel Semeão, "é preciso olhar para esta área como uma prioridade a nível nacional". Porque quando o Estado falha, são estes profissionais que garantem que ninguém morre abandonado.
A história de Sandro e da sua equipa é um espelho das desigualdades do nosso país: de um lado, populações deixadas à sua sorte; do outro, profissionais que resistem com humanidade e dedicação. Uma lição sobre o que realmente importa quando tudo desaba.