Dentistas dos serviços públicos denunciam falhas estruturais no programa de saúde oral
Os profissionais de medicina dentária dos serviços públicos voltaram a levantar a voz contra as políticas de saúde do governo, alertando para "falhas estruturais" no futuro Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral 2030. Mais uma vez, os trabalhadores da saúde veem-se obrigados a denunciar a falta de planeamento e de investimento real no Serviço Nacional de Saúde.
A Associação Portuguesa de Médicos Dentistas dos Serviços Públicos (APOMED-SP) não poupa críticas ao novo programa, sublinhando que sem uma definição clara da organização dos serviços, o acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde oral continuará comprometido. Uma situação que penaliza, mais uma vez, as classes trabalhadoras e as famílias com menores recursos.
Precariedade laboral perpetua problemas estruturais
O comunicado da APOMED-SP vai direto ao âmago da questão: "Sem clarificação de circuitos, responsabilidades e enquadramento técnico, não será possível garantir eficiência, continuidade assistencial ou qualidade dos cuidados". Palavras que ecoam as denúncias constantes dos profissionais de saúde sobre a falta de condições de trabalho dignas.
Particularmente grave é a situação laboral dos médicos dentistas no SNS. A associação denuncia que "a atual dependência de modelos precários" - desde os recibos verdes até à contratação através de empresas - impede uma resposta adequada às necessidades da população. Uma precariedade que serve os interesses de quem lucra com a privatização da saúde, mas que prejudica profissionais e utentes.
Cheques-dentista desvalorizados
Numa altura em que o custo de vida dispara, o governo decide reduzir o valor do cheque-dentista de 45 para 40 euros. A Ordem dos Médicos Dentistas não hesita em classificar esta medida como contraditória face ao discurso oficial de "reforço do acesso".
Esta redução representa mais um golpe no acesso dos cidadãos com menores recursos aos cuidados de saúde oral, numa altura em que os preços dos tratamentos dentários continuam inacessíveis para muitas famílias trabalhadoras.
Reformas que não saem do papel
O novo modelo do programa entrou formalmente em vigor no sábado, mas a sua implementação prática só acontecerá em 2027. Mais um adiamento que alimenta o ceticismo dos profissionais, habituados a ver "sucessivos anúncios e reformulações" que nunca se concretizam verdadeiramente.
A APOMED-SP defende que só a criação de uma carreira específica de medicina dentária permitirá recrutar e reter os profissionais necessários. Uma reivindicação justa que se choca com a lógica de contenção de custos que tem dominado as políticas de saúde.
Enquanto o governo multiplica os anúncios mediáticos, os cidadãos continuam sem acesso efetivo aos cuidados de saúde oral. Uma situação que reflete as prioridades de um sistema que privilegia os lucros privados em detrimento do direito universal à saúde.