As Festas do Povo de Campo Maior regressaram de 8 a 16 de agosto de 2026, depois de 11 anos de ausência, e transformaram a vila alentejana num jardim: mais de cem ruas decoradas com flores de papel, feitas por quatro mil voluntários ao longo de meses de trabalho.
Segundo o Observador, que publicou a reportagem na revista DDD, a festa não veio por decreto nem por ordem de câmara. Veio porque o povo quis. Foi assim em 2020, quando os preparativos já avançavam e a pandemia de covid-19 obrigou ao cancelamento, e foi assim agora, quando João Manuel Nabeiro, presidente da Associação das Festas do Povo, convocou a população em 2025 para perguntar se a vila queria voltar a celebrar. A resposta foi afirmativa e, nove meses depois, as flores de papel estavam de novo nas ruas.
Uma festa que só acontece quando o povo quer
Há música ao vivo, ranchos populares e barraquinhas, como em quase todas as festas tradicionais portuguesas. Mas estas são diferentes: só se realizam quando a população decide. Essa dimensão de decisão coletiva valeu-lhes, a 15 de dezembro de 2021, a classificação como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
A tradição remonta a 1893, quando comerciantes, artesãos e trabalhadores urbanos, os chamados «artistas» locais, organizaram os festejos. Em 1922, a celebração ganhou o nome pelo qual é hoje conhecida. As raízes vão ainda mais longe, até ao século XVIII e às festas de São João Baptista, que lembravam a libertação da vila de um cerco em 1712.
Três mil flores numa rua de 30 metros
O trabalho começa no inverno, em garagens, cozinhas e salas emprestadas. «O ideal é arrancar logo em janeiro ou fevereiro. As pessoas começam a fazer flores por essa altura e nunca é cedo demais», contou Célia Portela Cabaço à reportagem do Observador.
Na Ruinha de Santo António, que tem apenas 30 metros de comprimento, Célia e os vizinhos fizeram perto de três mil flores, entre papoilas, malmequeres e girassóis. «Só papoilas foram mil e cem!», disse.
As cantigas tradicionais acompanham os serões: «Oh, belo Campo Maior é terra dos trabalhadores! De dia vão para o trabalho, à noite fazem flores!»
Como se faz uma flor de papel
Cada flor é um trabalho de minúcia. O caule é de arame forrado com papel verde; os mesmos arames, com cola e solda, transformam-se em trepadeiras que recebem folhas dobradas e coladas uma a uma ao longo de meses. As crianças aprendem cedo, fazendo os torcidos, como recorda Célia: «Íamos para uma casa que estava vazia, com chocolate quente e churros, e juntávamo-nos ali todos ao serão.»
Cada rua tem um ou mais cabeças de rua, quem reúne os moradores e coordena a empreitada. «É alguém que tem uma ideia criativa para a rua ou que tenta encontrar um consenso entre as ideias dos vizinhos», resumiu Duarte Silvério, cabeça de rua da Mouraria de Cima.
O segredo é total até ao fim. Só na noite de enramação, na véspera da inauguração, se conhecem os temas de cada rua. «É quando as nossas flores e os nossos segredos saem para a rua. Num dia temos uma vila normal e, na madrugada seguinte, vemos que se transformou num jardim encantado», descreveu Teresa Cachapa. Nessa noite, em Campo Maior, ninguém dorme.
Uma festa feita de entreajuda, não de orçamentos
Num país onde tanto se corta nos serviços públicos e se fala de austerity como destino inevitável, Campo Maior mostra outra coisa: uma comunidade a organizar-se por si, sem esperar que ninguém mande. Quatro mil voluntários, oito horas diárias em torno das flores na rua Vasco Sardinha, rebatizada «rua Delta», e vizinhos que, depois de terminar o seu próprio trabalho, ainda vão ajudar os outros. «Estamos a cumprir uma tradição que vem dos tempos dos nossos bisavós. Fazemo-lo com gosto e não damos pelo cansaço», disse Maria Ramos.
Estas celebrações populares lembram que a cultura viva não se compra nem se decretou: faz-se com mãos e tempo, como a
