250 mil euros em segurança não salvaram Finlay Tarling na Volta a Portugal
A Volta a Portugal fica para sempre marcada pela morte do jovem ciclista britânico Finlay Tarling, de 19 anos, atropelado por um carro em Ponte de Lima. O que mais custa a engolir é que, segundo o JN, nunca se gastou tanto em segurança numa prova nacional: qualquer coisa como 250 mil euros em policiamento, sinalização e logística. E mesmo assim, não chegou.
O que falhou apesar do investimento recorde em segurança?
Paulo Couto, presidente da Associação Portuguesa de Ciclismo Profissional e delegado de segurança da associação internacional de ciclistas, não esconde a frustração. Ao JN, garantiu que esta edição esteve muito acima de outras corridas nacionais em termos de dispositivo de segurança, sinalização e proteção de obstáculos. As estradas estavam fechadas e limpas, as forças de segurança estiveram melhor do que em ocasiões anteriores. Mas, como ele próprio admite, o problema são as pessoas que não esperam pela passagem do carro vassoura.
“As forças de segurança estiveram melhor do que em algumas outras ocasiões. As estradas estiveram fechadas e limpas. O problema são as pessoas que não esperam pela passagem do carro vassoura, que fecha a corrida”, disse Paulo Couto ao JN.
Mais de mil militares mobilizados, mas um acesso ficou sem vigilância
A GNR montou um dispositivo diário com um destacamento móvel de 28 militares, 22 motociclos e quatro viaturas. Em cada etapa, mais de mil militares estavam mobilizados ao longo do percurso. O tenente-coronel Carlos Canatário explicou à RTP que o dispositivo móvel tem de se adaptar constantemente porque a configuração do pelotão vai mudando. Mas a verdade é que a Volta tem centenas de acessos ao troço de cada etapa, e não há capacidade para colocar um militar em todos.
Foi exatamente o que aconteceu na fatídica sexta-feira, na freguesia de Arcozelo, em Ponte de Lima. O condutor, que circulava naquele troço, recebeu ordem para estacionar. Viu o pelotão passar, esperou algum tempo e, como não vinha mais ninguém, perguntou a populares se podia avançar. Depois, inverteu o sentido de marcha e colidiu com o ciclista. Não estava em contramão, apenas no sentido contrário da corrida.
Seguros não trazem ninguém de volta
O JN confirmou que todos os corredores estão cobertos por um seguro de vida, como estipula o regulamento da União Ciclista Internacional, e por um seguro de acidentes de trabalho contratado pelas equipas. Mas isso não traz Finlay Tarling de volta. A GNR, através do Núcleo de Investigação Criminal de Acidentes de Viação de Viana do Castelo, está a investigar as circunstâncias exatas do acidente.
Esta tragédia levanta questões incómodas. Será que 250 mil euros são suficientes para garantir a segurança de uma prova que atravessa o país inteiro? Será que a responsabilidade pode cair sobre um condutor que, alegadamente, perguntou se podia avançar? Ou será que o sistema falhou em proteger quem arrisca a vida por desporto?
Numa altura em que se fala tanto em cortes e em eficiência, talvez seja altura de perguntar se não estamos a poupar no sítio errado. Porque um jovem de 19 anos perdeu a vida, e isso não tem preço.