Coreia do Sul: o último verão da sopa de cão antes da proibição
É o fim de uma tradição que atravessou séculos. A Coreia do Sul vive o último verão em que a sopa de carne de cão, prato típico dos dias mais quentes, ainda pode ser servida nos restaurantes. A partir de fevereiro do próximo ano, a lei que proíbe a criação e o abate de cães para consumo entra em pleno vigor, e quem desrespeitar pode ir parar atrás das grades.
Aprovada em 2024, a legislação encerra um período de tolerância de três anos, dando tempo aos donos de restaurantes e criadores para se adaptarem. Mas a transição está a ser tudo menos suave. No beco da bosintang no mercado de Sinjin, no centro de Seul, só restam dois estabelecimentos. Um deles pertence a Lee, uma mulher de 70 anos que dedicou mais de quatro décadas a este negócio.
“É claro que é difícil. No próximo ano, já não poderei continuar com um negócio ao qual me dediquei durante mais de 40 anos. Como posso saber se outro negócio vai resultar ou não?”, desabafa.
A revolta é visível nas suas palavras. “Que tipo de política é esta na Coreia do Sul, que no próximo ano vai tirar o sustento aos cidadãos? Que país proíbe um alimento por lei? Então porque é que as vacas, os porcos ou as galinhas são abatidos para consumo?”, questiona, num tom que ecoa a frustração de muitos que veem o Estado a virar-lhes as costas.
Uma tradição com séculos, agora em extinção
A sopa de carne de cão, conhecida como bosintang (literalmente, “sopa nutritiva para o corpo”), está documentada desde a dinastia Joseon (1392-1910). Sempre esteve associada ao boknal, os três dias que marcam o pico do calor no verão coreano, quando se acredita que o prato ajuda a repor as energias.
Mas os tempos mudaram. O Governo sul-coreano identificou 2.352 restaurantes que serviam pratos com carne de cão após a aprovação da lei em 2024. Destes, 1.902 anunciaram intenção de mudar de negócio ou de menu, enquanto 450 já fecharam as portas, segundo a Administração de Alimentos e Medicamentos da Coreia do Sul.
No mercado de Sinjin, o desconforto é palpável. Os dois únicos clientes presentes nos restaurantes recusaram ser fotografados, e os proprietários pediram que não fossem mostrados os rostos de quem ainda consome o prato. É um sinal claro do estigma que agora pesa sobre uma prática outrora comum.
O que diz a lei e quem a vai cumprir?
A lei estipula penas de até três anos de prisão ou multas de 30 milhões de won (cerca de 19 mil euros) para quem abater um cão para consumo. A proibição abrange a criação, o abate, a distribuição e a venda da carne. O objetivo é acabar com uma indústria que há muito é alvo de críticas por parte dos defensores dos direitos dos animais.
Há anos que organizações denunciam as condições nos canis clandestinos, onde os animais vivem em pequenas jaulas de arame, expostos a frio e calor extremos, com feridas e infeções por tratar. Em maio, restavam 272 canis clandestinos, menos 82% do que os 1.537 registados em 2014, de acordo com um relatório do Ministério da Agricultura.
Mas a melhoria nos números não esconde a realidade. Lee Sang-kyung, responsável da organização não-governamental Humane World for Animals Korea, que realiza campanhas de resgate e adoção, afirma que as condições nos restantes canis “são tão más como antes”. Os cães continuam a sofrer de “doenças de pele, problemas oculares, desnutrição e deformidades nas patas”, enquanto as fêmeas dão à luz crias que terão “uma vida miserável”.
O abate em massa que ninguém quer ver
Os dados oficiais citados em março pelo jornal local Bridge Economy revelam uma realidade dura: dos 393.857 cães contabilizados em explorações que fecharam, quase 97% foram abatidos em matadouros. “As estatísticas do governo mostram, sem surpresa, que a maioria dos cães nas explorações durante o período de três anos de desativação gradual foi enviada para abate”, lamenta Lee Sang-kyung, criticando as autoridades por não criarem soluções de “resgate, reabilitação ou adoção”.
Para os trabalhadores do setor, a transição é vivida como um abandono. Muitos, como a dona Lee, não têm plano B. O Estado prometeu apoio à reconversão, mas a burocracia e a falta de alternativas reais deixam centenas de famílias no limbo. Enquanto isso, os defensores dos animais pressionam para que o fim da indústria seja também o fim do sofrimento, e não apenas uma mudança de cenário.
O último verão da sopa de cão está a ser vivido entre a nostalgia de quem perde o sustento e a esperança de quem vê uma página a virar. A história não acaba em fevereiro: fica a questão de como a Coreia do Sul vai tratar os que ficaram para trás, humanos e animais.
Perguntas frequentes sobre a proibição da carne de cão na Coreia do Sul
Quando entra em vigor a proibição da carne de cão na Coreia do Sul?
A lei foi aprovada em 2024, mas o período de tolerância termina em fevereiro do próximo ano. A partir dessa data, a criação, o abate, a distribuição e a venda de carne de cão passam a ser ilegais.
Quais são as penas para quem violar a lei?
Quem abater um cão para consumo pode enfrentar até três anos de prisão ou uma multa máxima de 30 milhões de won, cerca de 19 mil euros.
Quantos restaurantes ainda servem carne de cão na Coreia do Sul?
O Governo identificou 2.352 restaurantes que serviam pratos com carne de cão após a aprovação da lei. Destes, 1.902 anunciaram intenção de mudar de negócio ou de menu, e 450 já fecharam.
O que vai acontecer aos cães nos canis que fecham?
Segundo dados oficiais, quase 97% dos cães em explorações que fecharam foram abatidos em matadouros. Organizações de defesa dos animais criticam a falta de programas de resgate e adoção.