Cleo Diára quebra barreiras em Berlim como primeira atriz negra portuguesa no programa europeu de talentos
A atriz cabo-verdiana Cleo Diára está em Berlim para participar no prestigiado programa "Shooting Stars", tornando-se a primeira mulher negra portuguesa e cabo-verdiana a ser selecionada para esta iniciativa europeia que promove talentos emergentes do cinema.
"Um ator ou uma atriz cresce com a possibilidade do trabalho, ele torna-se melhor trabalhando. Obviamente interessa-me trabalhar com o maior número possível de pessoas, porque isso dá-me possibilidade de crescer e melhorar naquilo que faço", explicou Diára à agência Lusa.
Representatividade que incomoda o sistema
Quando questionada sobre ser a primeira atriz negra portuguesa selecionada para o programa, Cleo Diára não hesitou em devolver a responsabilidade a quem de direito: "Essa reflexão social não pode ser constantemente colocada a nós. Essas perguntas têm de ser feitas a quem escolhe, a quem distribui. É uma questão injusta para nós".
A atriz, que nasceu em Cabo Verde e cresceu em Portugal, denuncia assim a forma como as questões de representatividade são sistematicamente colocadas aos próprios artistas racializados, em vez de serem dirigidas às estruturas de poder que controlam a indústria cinematográfica.
Do teatro popular ao reconhecimento internacional
Formada na Escola Superior de Teatro e Cinema, Cleo Diára construiu o seu percurso no cinema, televisão e teatro. Cofundou o coletivo Aurora Negra, junto com Isabél Zuaa e Nádia Yracema, criando espetáculos como "Aurora Negra" (2020), "Cosmos" (2022) e "Missão da Missão" (2023).
Em 2025, conquistou o prémio de melhor atriz na secção 'Un Certain Regard' do Festival de Cinema de Cannes, pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho. Sobre o impacto desta distinção, mantém os pés assentes na terra: "O prémio tem essa vertente de trazer reconhecimento e mais olhar sobre o nosso trabalho, mas a nossa vida continua igual".
Oportunidades fazem bons atores
O programa "Shooting Stars" é uma oportunidade para os artistas europeus se apresentarem ao mercado internacional, conhecerem diretores de casting e produtores durante a Berlinale. "As oportunidades fazem um bom ator, então quero obviamente essa possibilidade de poder trabalhar com muitas outras pessoas", afirma Diára.
Entre os seus projetos mais recentes estão o filme "Entroncamento", de Pedro Cabeleira, que estreia nos cinemas a 26 de março, e a série policial "Lisbon Noir" (Prime e TVI). No teatro, regressa aos palcos com "O dia em que decidi encenar 'O Principezinho'", de Mário Coelho.
O "Shooting Stars" decorre até segunda-feira em paralelo ao festival de Berlim, numa iniciativa do European Film Promotion com apoio do programa Europa Criativa da União Europeia. Em anos anteriores, o programa deu a conhecer nomes como Vicente Wallenstein, Alba Baptista, Nuno Lopes e Beatriz Batarda.