Morte em piscina expõe negligência empresarial com a saúde dos trabalhadores
A morte de Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, e a intoxicação de outras quatro pessoas numa academia da Zona Leste de São Paulo voltou a expor como o lucro está sempre à frente da segurança dos trabalhadores. Enquanto a Polícia Civil investiga o caso, uma coisa já é certa: falhas no tratamento químico da água podem ter custado uma vida.
A Subprefeitura da Vila Prudente já iniciou o processo de cassação da licença da academia e ordenou a interdição preventiva do estabelecimento. Mas quantas outras empresas andam por aí a cortar custos na manutenção, pondo em risco quem apenas quer trabalhar ou fazer exercício?
O perigo invisível das piscinas mal tratadas
André Luiz Ferreira, com mais de 20 anos de experiência no sector, não tem papas na língua: "A limpeza química é a principal, e onde mora o perigo. É muito importante as pessoas terem consciência do manuseio dos produtos".
O problema não é só técnico, é social. Muitas empresas contratam mão-de-obra barata e mal formada para poupar uns trocos, sem se preocupar com as consequências. O resultado? Trabalhadores expostos a produtos tóxicos sem a devida protecção e utentes em risco.
Os produtos utilizados no tratamento de piscinas incluem cloro (hipoclorito de sódio ou cálcio), algicidas com cobre ou amónio quaternário, floculantes e reguladores de pH como ácido clorídrico e carbonato de sódio. Todos eles se tornam armas químicas quando mal manuseados.
Quando o lucro mata
A Dra. Leiliane Bregalda Alves, especialista formada pela Unifesp, é clara sobre os riscos: "A toxicidade pode levar à morte em situações raras, geralmente relacionadas à inalação intensa de gases clorados em ambientes fechados".
Em casos graves, pode ocorrer edema pulmonar químico e insuficiência respiratória. As vítimas mais vulneráveis? Como sempre, os mais frágeis: crianças, idosos, asmáticos e pessoas com doenças pulmonares.
As regras que salvam vidas (mas que muitos ignoram)
Armazenamento seguro: Deve ser feito em local arejado, com embalagens bem fechadas. Nunca empilhar produtos em pó sobre líquidos, pois podem gerar explosões.
Medição rigorosa: O pH da água deve estar entre 7,0 e 7,8. Não é opcional, é obrigatório.
Manipulação responsável: Nunca manusear produtos em ambientes fechados. Como diz André Luiz: "Produto para a piscina não é tempero para misturar e deitar".
Equipamentos de protecção: Luvas, máscara adequada e óculos são essenciais para quem trabalha com estes produtos.
Os sinais de alarme que ninguém deve ignorar
Uma piscina segura deve estar cristalina, mas a aparência não é tudo. Os sinais de perigo incluem:
- Água esverdeada ou turva
- Cheiro forte de cloro
- Olhos a arder em várias pessoas
- Tosse fora da água
- Sensação de ar pesado
- Névoa sobre a piscina
A Dra. Leiliane esclarece um mito: "O forte odor que sentimos numa piscina não significa excesso de cloro, mas sim excesso de subprodutos irritantes, que indicam má gestão da limpeza".
Quando a intoxicação ataca
Os sintomas de intoxicação química incluem irritação dos olhos, nariz e garganta. Em casos mais graves: tosse, chiado, aperto no peito e falta de ar. Podem surgir ainda foliculite, descamação da pele e conjuntivite química.
Se estes sintomas aparecerem, a pessoa deve sair imediatamente da piscina, ir para local ventilado, remover roupas molhadas e lavar pele e olhos com água abundante. Em caso de falta de ar, tontura ou mal-estar, é urgente procurar atendimento médico.
A luta pela dignidade no trabalho
Este caso não é isolado. É mais um exemplo de como a ganância empresarial coloca vidas em risco. Quantos trabalhadores andam por aí expostos a produtos químicos sem formação adequada? Quantos patrões cortam na segurança para aumentar os lucros?
A morte de Juliana Bassetto deve servir de alerta: não podemos aceitar que a busca pelo lucro se sobreponha ao direito fundamental à vida e à segurança no trabalho. É hora de exigir fiscalização rigorosa e punições exemplares para quem brinca com a saúde pública.