Têxtil português resiste mas patronato esconde a realidade dos trabalhadores
As exportações de têxteis e vestuário caíram 0,8% em 2025, atingindo os 5.499 milhões de euros. Mas por trás dos números oficiais e do discurso patronal sobre "resiliência", esconde-se uma realidade bem mais dura para quem trabalha neste sector.
Ana Dinis, directora-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), fala em "volumes relativamente estáveis" e "pressão sobre o valor". Uma linguagem técnica que não revela o impacto real desta quebra nas condições de vida dos trabalhadores do sector.
Os números frios da precariedade
Os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que o vestuário recuou 0,3% para 3.178,2 milhões de euros, as matérias têxteis caíram 1,9% para 1.462 milhões, e os têxteis lar desceram 0,7% para 858,9 milhões de euros.
Espanha mantém-se como principal destino, praticamente estável com 1.318 milhões de euros. Mas França e Alemanha contraíram-se 1,4% e 2,1% respectivamente. Mais preocupante ainda é a quebra de 13% nas exportações para Itália, uma descida de 47 milhões de euros.
A culpa é sempre dos outros
A ATP aponta o dedo às "plataformas de comércio electrónico que promovem produtos de muito baixo preço, baixa qualidade e reduzida responsabilidade social e ambiental". Um discurso que ignora convenientemente as próprias práticas do sector em Portugal.
Ana Dinis alerta para a "destruição de uma indústria europeia que investe em qualidade, conformidade e sustentabilidade". Mas será que os salários baixos e a precariedade laboral que caracterizam o sector português são sinónimo de sustentabilidade social?
Encerramentos que "são normais"
Quando confrontada com os 44 encerramentos de empresas têxteis em Janeiro, segundo dados da Informa D&B, a dirigente patronal minimiza: "existe alguma dinâmica normal de ajustamento". Uma frieza que contrasta com a ansiedade de centenas de famílias que ficam sem sustento.
"O número de encerramentos, por si só, não permite concluir sobre um agravamento estrutural", sustenta Ana Dinis. Para os trabalhadores despedidos, porém, a situação é bem estrutural e muito grave.
Apoios que nunca chegam
A ATP lamenta que "não foram adoptadas respostas extraordinárias" para o sector. Os instrumentos disponíveis são "de natureza transversal e pouco ajustados", critica. Mas onde estava esta preocupação quando se tratava de defender melhores salários e condições de trabalho?
O sector integra cerca de 12 mil empresas, muitas de pequena dimensão, empregando milhares de trabalhadores. São estes rostos humanos que ficam esquecidos na retórica empresarial sobre competitividade e mercados globais.
Enquanto a patronal se queixa da concorrência desleal, os trabalhadores do têxtil continuam a enfrentar salários baixos, horários extensos e um futuro incerto. A verdadeira questão não é apenas a queda das exportações, mas como se protegem os direitos de quem faz funcionar esta indústria.