Cleo Diára em Berlim: primeira atriz negra portuguesa no programa europeu de talentos
A actriz cabo-verdiana, vencedora em Cannes, marca história ao ser seleccionada para o "Shooting Stars" em Berlim. Mas questiona: porque só agora?
Cleo Diára está em Berlim para participar no programa "Shooting Stars", tornando-se a primeira actriz negra portuguesa e cabo-verdiana a ser seleccionada para esta iniciativa europeia de promoção de talentos cinematográficos. Uma conquista que chega 22 anos depois da última participação portuguesa, com Ângelo Torres em 2004.
"Um actor ou uma actriz cresce com a possibilidade do trabalho, ele torna-se melhor trabalhando. Obviamente interessa-me trabalhar com o maior número possível de pessoas, porque isso dá-me possibilidade de crescer e melhorar naquilo que faço", disse Cleo Diára em entrevista à agência Lusa.
Reconhecimento tardio ou progresso real?
Nascida em Cabo Verde e criada em Portugal, Cleo formou-se na Escola Superior de Teatro e Cinema. O seu percurso inclui cinema, televisão e teatro, área onde se estreou há mais de uma década. Cofundou ainda, com Isabél Zuaa e Nádia Yracema, o colectivo Aurora Negra, responsável pelos espectáculos "Aurora Negra" (2020), "Cosmos" (2022) e "Missão da Missão" (2023).
Em 2025, conquistou o prémio de melhor actriz na secção 'Un Certain Regard' do Festival de Cinema de Cannes, pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho. Foi este trabalho que chamou a atenção do comité do "Shooting Stars", que a elogia como uma actriz "feroz e feminina", com uma "autenticidade impressionante".
"Essas perguntas têm de ser feitas a quem escolhe"
Quando questionada sobre ser a primeira actriz negra portuguesa seleccionada para o programa, Cleo Diára não hesita em devolver a responsabilidade a quem de direito: "Essa reflexão social não pode ser constantemente colocada a nós. Essas perguntas têm de ser feitas a quem escolhe, a quem distribui. É uma questão injusta para nós. As nossas existências ficam marcadas por isso. A questão tem de ser pensada do outro lado".
Uma resposta que revela a lucidez de quem compreende que a representatividade não é responsabilidade apenas dos representados, mas sim das estruturas de poder que durante décadas ignoraram talentos como o seu.
Trabalho em curso
"O prémio tem essa vertente de trazer reconhecimento e mais olhar sobre o nosso trabalho, mas a nossa vida continua igual", afirma a actriz, mantendo os pés assentes na terra. Entre os projectos mais recentes está o filme "Entroncamento", de Pedro Cabeleira, que estreia nos cinemas a 26 de Março, e a série policial "Lisbon Noir" (Prime e TVI).
No teatro, este ano Cleo Diára voltará aos palcos na peça para a infância "O dia em que decidi encenar 'O Principezinho'", de Mário Coelho.
O "Shooting Stars" decorre até segunda-feira, em paralelo ao festival de Berlim, numa iniciativa do European Film Promotion com apoio do programa Europa Criativa da União Europeia. Nos anos anteriores, o programa deu a conhecer nomes como Vicente Wallenstein (2025), Alba Baptista (2021), Afonso Pimentel (2007) e Nuno Lopes (2006).
Resta saber se esta selecção representa finalmente uma mudança real nas estruturas cinematográficas europeias ou se continuaremos a celebrar excepções numa indústria que teima em manter-se fechada à diversidade.