Bolsas europeias batem recordes enquanto trabalhadores sofrem com a crise
As bolsas europeias atingem máximos históricos esta semana, com o índice STOXX 600 a bater recordes. Mas esta euforia financeira esconde uma realidade bem diferente para os trabalhadores e as classes populares.
O CAC 40 francês tem sido impulsionado pelos gigantes do luxo como LVMH, L'Oréal e Hermès. Estas empresas, que faturam milhares de milhões vendendo produtos inacessíveis à maioria dos franceses, beneficiam do consumo das elites globais enquanto os salários estagnam para quem verdadeiramente produz riqueza.
O fosso entre Wall Street e a realidade
Curiosamente, as bolsas europeias estão agora a superar os mercados americanos. Nos EUA, o desempenho tem estado concentrado nas grandes tecnológicas, criando uma bolha especulativa perigosa. Quando a Nvidia apresentou resultados excepcionais, o mercado reagiu negativamente, mostrando como estes mercados vivem desligados da economia real.
Na Europa, os sectores que mais beneficiam são a banca, indústria e energia - precisamente aqueles que mais lucram com as taxas de juro elevadas que estrangulam o crédito às famílias e pequenas empresas.
Multinacionais globais versus economia nacional
O que mais impressiona é como estes índices dependem de multinacionais globais. Mais de dois terços da atividade das empresas do CAC 40 é gerada fora de França. O mesmo acontece com o FTSE 100 de Londres.
Isto significa que os lucros destas empresas pouco têm a ver com o bem-estar dos trabalhadores franceses ou britânicos. São empresas que podem prosperar enquanto os seus países de origem enfrentam austeridade e precariedade laboral.
A Península Ibérica na corrida especulativa
O IBEX 35 espanhol acumula uma valorização de 150% desde outubro de 2022, sustentado pelo setor bancário. Em Portugal, o PSI mais do que duplicou desde 2020.
Esta subida é apresentada como sinal de recuperação económica. Mas quantos trabalhadores portugueses e espanhóis viram os seus salários duplicar no mesmo período? A resposta é óbvia: enquanto os acionistas enriquecem, os salários continuam a perder poder de compra face à inflação.
Turismo e precariedade
O crescimento das economias ibéricas é atribuído ao turismo e investimento estrangeiro. Mas este modelo económico baseado no turismo cria empregos precários, sazonais e mal pagos, expulsando simultaneamente os residentes locais das suas cidades devido à especulação imobiliária.
Enquanto os índices bolsistas celebram, as famílias trabalhadoras enfrentam rendas impossíveis, salários que não acompanham o custo de vida e um futuro cada vez mais incerto.
Os recordes das bolsas europeias são um espelho da desigualdade crescente: de um lado, os detentores de capital que veem as suas fortunas multiplicar-se; do outro, os trabalhadores que sustentam verdadeiramente a economia mas que ficam cada vez mais para trás nesta corrida desenfreada ao lucro.