Empresário do Norte compra estaleiros navais enquanto Portugal desperdiça oportunidades marítimas
Mais uma vez, é a iniciativa privada que tenta salvar o que resta da nossa indústria naval. Mário Ferreira, proprietário da Douro Azul, adquiriu os estaleiros da Navalria em Aveiro à Martifer por 3,7 milhões de euros, numa operação que revela tanto as potencialidades como as fragilidades do sector naval português.
A Navalria, localizada no Porto de Aveiro, dedica-se à construção e reparação de embarcações de pequena e média dimensão. O empresário nortenho confirmou ao ECO que tem um projeto de investimento para aumentar a capacidade de produção dos estaleiros, tanto para o seu grupo como para outros operadores navais.
Um grito de alerta sobre o abandono da construção naval
Esta aquisição surge numa altura em que Mário Ferreira tem denunciado publicamente o estado lamentável da indústria naval portuguesa. No início deste ano, o empresário recorreu às redes sociais para mostrar a sua frustração com a falta de espaço disponível para construir embarcações em Viana do Castelo.
A imagem é reveladora: um novo navio para o Douro que teve de ser construído nos estaleiros de Kladovo, na Sérvia. "Portugal precisa de rapidamente repensar a indústria da construção naval e não perder as muitas oportunidades, nacionais e internacionais", escreveu Ferreira, num desabafo que deveria fazer soar alarmes em São Bento.
Quando o privado faz o que o Estado deveria fazer
O dono da Douro Azul já tinha manifestado interesse em participar numa solução para recuperar os estaleiros navais da Mitrena, em Setúbal, capacitando-os para a construção de navios fluviais, oceânicos e de uso militar. Estes estaleiros, concessionados à Lisnave até 31 de julho de 2027, atualmente só têm licença para reparações.
É sintomático que seja um empresário privado a tentar colmatar as falhas de uma política industrial inexistente. Enquanto outros países europeus apostam na reindustrialização e na economia azul, Portugal continua a desperdiçar o seu potencial marítimo.
A história de abandono dos estaleiros de Aveiro
A Navalria tem uma história que espelha o declínio da nossa indústria naval. Fundada em 1978 para responder às necessidades de reparação dos navios pesqueiros da região, especialmente da pesca do bacalhau, conheceu tempos áureos na década seguinte.
Associou-se então aos estaleiros de São Jacinto para aumentar a capacidade de construção de embarcações em aço, aproveitando a expansão da indústria que levou os armadores a investirem na renovação das frotas.
Mas nos anos 1990, o desinvestimento sucessivo na área do mar e das pescas fez com que passasse a dedicar-se apenas à manutenção e reparação. Só mais recentemente retomou a operação de reciclagem de navios nestes estaleiros que ocupam uma área concessionada pelo Porto de Aveiro.
Um negócio residual para a Martifer
Para a Martifer, que tinha adquirido a Navalria em 2008 por 4,6 milhões de euros, esta venda por 3,7 milhões representa um "impacto positivo, embora residual, nos resultados consolidados". A empresa de Oliveira de Frades optou por não identificar publicamente o comprador no comunicado enviado à CMVM.
Com infraestruturas que permitem trabalhos de construção e reparação naval de navios até 100 metros, a Navalria integrava a Martifer Metallic Constructions, que também incorpora a subconcessão dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo através da West Sea.
Esta operação surge numa altura em que a própria Martifer está a ser alvo de uma oferta pública de aquisição por parte da Visabeira, num acordo que envolve também a I'M SGPS e a Mota-Engil, criando um bloco de controlo com cerca de 87,4% dos direitos de voto.
Resta saber se esta mudança de mãos será suficiente para devolver aos estaleiros de Aveiro o dinamismo perdido, ou se continuaremos a assistir ao lento definhamento de um sector estratégico para um país com a nossa extensão de costa.