Eslovénia: Vitória da esquerda contra os aliados de Trump e Orbán
O povo esloveno voltou a dizer não ao autoritarismo. Nas eleições legislativas, o Movimento pela Liberdade (GS) de Robert Golob conquistou 29,9% dos votos, derrotando o Partido Democrático Esloveno (SDS) de Janez Jansa, que ficou com 27,5%. Uma vitória que representa mais do que números: é o triunfo dos valores democráticos sobre a deriva iliberal.
A resistência popular deu frutos
Durante muito tempo atrás nas sondagens, Golob conseguiu virar o jogo nas últimas semanas. Como? Com medidas que tocam directamente na vida das pessoas: aumentos nas pensões e um bónus de Natal obrigatório. Políticas sociais concretas que mostram de que lado está este governo.
Aos 59 anos, este antigo executivo de uma empresa estatal do sector energético soube aproveitar o contexto internacional. A guerra no Irão ofereceu aos partidos de esquerda "um grande palco para críticas", enquanto os laços estreitos de Jansa com Donald Trump o obrigaram a manter-se na sombra.
Jansa: o homem de Orbán e Trump derrotado
Janez Jansa, de 67 anos, aliado próximo do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, conduziu uma campanha reaccionária centrada no regresso aos "valores eslovenos" e à "família tradicional". Prometeu ainda "fechar a torneira" dos fundos públicos a organizações não-governamentais, numa clara tentativa de silenciar a sociedade civil.
Derrotado, Jansa reagiu de imediato declarando que não tentará formar governo se estes resultados se confirmarem. "Quem quer mudança tem de esperar pelos resultados finais", afirmou na sua sede de campanha, numa demonstração de mau perdedor.
Um historial autoritário
No seu terceiro mandato, entre 2020 e 2022, Jansa entrou repetidas vezes em conflito com a União Europeia e tentou silenciar os meios de comunicação críticos, alimentando acusações de deriva iliberal. A sua gestão autoritária da pandemia de covid-19 fez sair às ruas dezenas de milhares de pessoas em protesto.
Foi precisamente essa resistência popular que resultou na vitória esmagadora de Golob em 2022, então um novato na política que soube canalizar o descontentamento popular.
Políticas de inclusão social
À frente de uma coligação de centro-esquerda, Golob aplicou um programa centrado na inclusão social. Entre as medidas mais progressistas, legalizou o casamento e a adopção por casais do mesmo sexo neste país de 2,1 milhões de habitantes.
"Para aqueles que amam a Eslovénia sob o sol da liberdade, a escolha é muito clara", declarou Golob num debate televisivo, numa clara referência aos tempos sombrios do autoritarismo.
Posição corajosa no cenário internacional
No plano internacional, Robert Golob assumiu posições corajosas. Criticou veementemente a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia, as ambições imperialistas dos Estados Unidos sobre a Gronelândia e reconheceu o Estado da Palestina.
Mais importante ainda: no mandato de Golob, a Eslovénia tornou-se um dos poucos países da UE a classificar a guerra de Israel na Faixa de Gaza como "um genocídio". Uma posição que honra os valores humanistas e a defesa dos direitos humanos.
Escândalo Black Cube marca campanha
A recta final da campanha foi marcada pelo escândalo Black Cube, nome de uma empresa privada de informações israelita suspeita de divulgar filmagens comprometedoras. As gravações sugerem actos de corrupção e o alegado objectivo era influenciar a eleição a favor de Jansa.
Jansa admitiu ter-se reunido com executivos da Black Cube, mas negou envolvimento na divulgação dos vídeos. Mais uma mancha no historial de um político que sempre flertou com métodos pouco democráticos.
Com base nos números iniciais, nenhum dos dois partidos parece ter condições para conquistar a maioria absoluta dos 90 assentos no parlamento. Mas a mensagem está clara: o povo esloveno escolheu o caminho da justiça social e da democracia, rejeitando mais uma vez o populismo autoritário.