Último elefante de circo em Portugal chega ao santuário
Julie, a última elefanta de circo em Portugal, pisou finalmente terra livre e tornou-se na primeira residente do Santuário de Elefantes Pangea, no Alentejo. Esta mudança marca o fim da presença de animais selvagens nos circos portugueses e o cumprimento, ainda que tardio, de uma lei que demorou a sair do papel.
Quarenta anos de espetáculo e cativeiro
Arrancada muito jovem do seu habitat natural no sul de África, Julie foi obrigada a atuar no circo Victor Hugo Cardinali durante quase quatro décadas. A sua vida resumiu-se a espetáculos até 2024, ano em que a proibição de animais selvagens entrou em vigor e em que o seu último companheiro faleceu. Para esta elefanta, a velhice chegou com o peso de problemas de mobilidade e saúde, marcas evidentes de uma vida de cativeiro e exploração.
A lei que demorou a chegar
O Parlamento aprovou a proibição de animais selvagens em circos em 2018, mas a lei só entrou em vigor seis anos depois, em 2024. Mesmo assim, Julie não pôde deixar o circo de imediato. Ficou presa à burocracia, à espera de uma solução regulamentada e de uma instituição que a acolhesse. Como tantas vezes acontece, a proteção legal ficou refém de penosas tramas administrativas. Enquanto a família Cardinali ponderava o futuro do animal, o Pangea Trust terminava o processo de licenciamento para lhe oferecer um lar permanente.
Um novo lar para quem sofreu
Com mais de 400 hectares nos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, no distrito de Évora, o santuário oferece o espaço e a autonomia que estes animais altamente inteligentes sempre mereceram. Julie vai agora explorar o seu novo ambiente ao seu próprio ritmo, recebendo os cuidados médicos especializados de que necessita nos anos de vida que lhe restam.
Trabalhar em parceria com os proprietários para encontrar a solução certa é fundamental. Muitos circos e zoos na Europa estão a chegar a um ponto em que manter elefantes já não é possível nem adequado e precisam de um lugar.
As palavras são de Kate Moore, diretora-geral da Pangea, que enfatizou o foco em proporcionar a Julie a melhor qualidade de vida possível. Já Victor Hugo Cardinali reconheceu a ligação que mantém com o animal, admitindo que, apesar de não ter sido fácil, a mudança é a decisão certa para ela.
O que é o Santuário Pangea?
Considerado o primeiro grande santuário da Europa para elefantes vítimas de cativeiro, a reserva está ainda fechada ao público. Tem capacidade para acolher 30 animais e prevê um investimento de 15 milhões de euros ao longo de cerca de 10 anos. Muitos circos e jardins zoológicos na Europa já não têm condições para manter elefantes, tornando este espaço uma necessidade urgente para reparar décadas de injustiça para com estas criaturas.
Vão chegar mais elefantes este ano?
Sim. Ainda este ano, Julie vai receber companhia. Kariba, outra elefanta africana de 40 anos que vive atualmente sozinha num zoo na Bélgica, vai rumar ao Alentejo. Tal como Julie, Kariba foi também capturada na natureza e aguarda agora a possibilidade de viver o resto dos seus dias com a dignidade que sempre lhe foi negada.