Tempestades custaram 6 mil milhões: onde está o Estado?
Um mês depois do "comboio de tempestades" que devastou o centro do país, os números são esmagadores: 18 mortos, prejuízos que podem chegar aos 6 mil milhões de euros, e milhares de famílias ainda sem casa ou emprego. Enquanto os seguros privados já contabilizam 750 milhões em indemnizações, o Estado promete apoios que chegam tarde e mal.
A tragédia em números que envergonham
Entre 28 de janeiro e meados de fevereiro, as depressões Kristin, Leonardo e Marta transformaram a vida de centenas de milhares de portugueses num pesadelo. Leiria foi o epicentro da catástrofe, concentrando 50 a 60% dos prejuízos totais, com a capital de distrito a contabilizar sozinha 792 milhões de euros em danos.
Os números da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil são reveladores da dimensão do desastre: 19.066 ocorrências em apenas 15 dias, 64.636 operacionais mobilizados, um milhão de pessoas sem electricidade no pico da tempestade Kristin.
Pelo menos 18 pessoas perderam a vida, muitas delas em circunstâncias que revelam a precariedade das habitações populares. Seis mortes resultaram de quedas de telhados durante reparações, evidenciando como os mais pobres são forçados a arriscar as suas vidas para proteger o pouco que têm.
Famílias abandonadas à sua sorte
Um mês depois, 179 habitações continuam inabitáveis na região Centro, mais de 200 em Alcácer do Sal. Para estas famílias, o apoio máximo do Estado são míseros 10 mil euros, uma quantia que Paulo Fernandes, coordenador da missão de reconstrução, admite ser "insuficiente".
Centenas de pessoas permanecem deslocadas ou desalojadas. Em Almada, 500 habitantes foram retirados das suas casas devido a deslizamentos de terra que continuam a ocorrer. Onde está a resposta estrutural do Estado?
O Hospital de Santo André, em Leiria, recebeu 756 feridos com traumas só nos primeiros dias após a tempestade Kristin. A maioria ferimentos resultantes de "trabalhos de limpeza e reconstrução" - ou seja, pessoas obrigadas a reparar os estragos com as próprias mãos, sem apoio técnico adequado.
O negócio privado prospera, o público falha
Enquanto as seguradoras privadas já movimentaram 500 milhões de euros em indemnizações e receberam 140 mil participações, o Estado distribui esmolas. A Associação Portuguesa de Seguradoras estima 750 milhões em danos indemnizáveis, mas apenas quem tem seguros privados vê o dinheiro.
Para as empresas, o panorama é desolador: entre 35 mil a 40 mil ficaram com danos, mais de 300 pediram lay-off para três mil trabalhadores. O desemprego bate à porta enquanto o Governo promete linhas de crédito que chegam tarde.
A EDP, empresa privada, mobilizou 2.400 pessoas e equipas de quatro países para repor a electricidade. Mesmo assim, um mês depois, explorações suinícolas continuavam às escuras. Se uma multinacional consegue mobilizar recursos internacionais, porque é que o Estado português não consegue?
Agricultura: o sector esquecido
Os agricultores, sempre os primeiros a sofrer e os últimos a ser apoiados, declararam 449 milhões de euros em prejuízos. São os que alimentam o país, mas o apoio máximo são 10 mil euros - uma migalha face aos estragos reais nas explorações.
Na região Centro, 2.945 candidaturas foram submetidas, correspondendo a 184 milhões em prejuízos. Em Lisboa e Vale do Tejo, 1.597 pedidos somam 141,6 milhões. Números que mostram como o mundo rural continua abandonado pelas políticas públicas.
Promessas vazias e demissões tardias
A demissão da ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, chegou tarde demais. Dezoito mortes depois, o Governo decide que alguém tem de pagar politicamente. Mas as estruturas que falharam mantêm-se intactas.
O primeiro-ministro Montenegro promete um programa "Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência" para abril, mas sem detalhar valores. Mais uma promessa vaga quando as famílias precisam de respostas concretas hoje.
Os 3,5 mil milhões prometidos em apoios contrastam com os 6 mil milhões de prejuízos estimados. Mesmo que tudo fosse pago, ficaria um buraco de 2,5 mil milhões que recairá sobre as costas das famílias trabalhadoras.
A lição que não se quer aprender
Esta catástrofe expõe as fragilidades de um modelo económico que privatiza os lucros e socializa os prejuízos. As seguradoras privadas funcionam, o Estado social falha. As empresas privadas mobilizam recursos internacionais, os serviços públicos não conseguem responder.
Um mês depois, milhares de portugueses continuam a contar os estragos enquanto esperam por apoios que chegam a conta-gotas. Esta é a realidade de um país que abandonou a ideia de Estado social para abraçar o fundamentalismo do mercado.
As tempestades passaram, mas a tempestade social que se avizinha pode ser ainda mais devastadora.