Enquanto as empresas portuguesas se gabam de progressos na igualdade de género, os números revelam uma realidade bem diferente. A Sonae, uma das maiores empresas do país, confessa que apenas 41% dos seus cargos de liderança são ocupados por mulheres, um aumento tímido face aos 34% de 2019.
Cláudia Azevedo, presidente executiva da Sonae, escreveu um artigo para o Fórum Económico Mundial de Davos onde reconhece que o "progresso é dolorosamente lento". Ao ritmo actual, a paridade plena demorará mais de um século a ser alcançada, segundo dados do próprio Fórum.
Mas será que estas declarações passam de pura encenação? Enquanto Azevedo alerta para os "riscos estratégicos" de não apostar na diversidade, a verdade é que muitas empresas continuam a tratar a igualdade como uma questão de imagem, não de justiça social.
Quotas funcionam, mas não chegam
A CEO admite que as quotas "são importantes" e "funcionam", mas "não são suficientes". Apenas 23,9% dos membros dos conselhos executivos na União Europeia são mulheres. "As mulheres são cada vez mais incluídas nos espaços de decisão, mas ainda não são escolhidas para os liderar", lamenta.
Esta confissão revela o que muitos já sabiam: as empresas fazem o mínimo para cumprir as quotas, mas mantêm os verdadeiros centros de poder nas mãos dos homens. É uma estratégia que permite mostrar números bonitos sem alterar as estruturas de dominação.
Pressões políticas travam avanços
Azevedo alerta que "em alguns mercados, as organizações estão a recuar nos esforços de diversidade em resposta a pressões políticas". Esta é uma crítica directa às forças conservadoras que tentam travar os avanços conquistados pelos movimentos sociais.
"Afastar-se da equidade não é apenas um erro moral, é um erro estratégico", defende a CEO, citando estudos que mostram como 70% dos consumidores preferem comprar a empresas que apoiam a diversidade.
Mas a questão vai além dos números de vendas. Trata-se de justiça social e de quebrar as barreiras que mantêm as mulheres afastadas dos centros de decisão económica.
Geração mais nova exige mudança
Os dados revelam que 76% dos trabalhadores preferem empresas que apoiem a diversidade, percentagem que sobe na Geração Z. "Num contexto de escassez de talento, ignorar estes sinais é um risco estratégico", escreve Azevedo.
Esta mudança geracional pode ser a chave para forçar as empresas a ir além das boas intenções. Quando os trabalhadores mais qualificados começam a escolher onde trabalhar com base em valores, as empresas são obrigadas a mudar ou a perder talento.
A Sonae prometeu atingir 45% de mulheres em cargos de liderança este ano. Resta saber se cumprirá ou se ficará mais uma vez pelas boas intenções.