Risco nas empresas: do travão ao motor do crescimento?
Durante décadas, o risco nas empresas foi visto como um mal necessário: algo para evitar, controlar e, se possível, esconder debaixo do tapete. Mas os tempos mudaram. Um estudo da Coface, feito com 1.250 decisores das áreas de risco e finanças, mostra que 44% dos líderes esperam que as equipas de risco se tornem parceiras estratégicas do crescimento nos próximos três a cinco anos. Em Portugal, essa mudança pode ser acelerada com melhor qualidade de dados, ferramentas preditivas e inteligência artificial.
O que está a mudar na gestão de risco?
A incerteza geopolítica, a volatilidade económica e a rápida evolução tecnológica estão a forçar as empresas a repensar a forma como lidam com o risco. Em vez de travar decisões e excluir oportunidades, a gestão de risco começa a ser vista como uma capacidade estratégica para crescer com maior segurança. O objetivo é encontrar um 'sim seguro': uma decisão que permita aproveitar uma oportunidade sem ignorar as ameaças associadas.
O estudo da Coface, intitulado Risk Management Survey 2026, revela que 62% das organizações ainda sentem tensão entre a ambição comercial e a disciplina de risco. Mas há um grupo de empresas mais avançadas, as chamadas Open Advantage Leaders, que já aplicam este modelo. Entre estas, 70% envolvem as equipas de risco na fase inicial das decisões de crescimento, contra 58% na amostra total.
Os travões internos: medo e falta de confiança
Apesar da vontade de mudar, os principais obstáculos continuam dentro das próprias empresas. Metade dos inquiridos considera que dizer 'não' é mais seguro do que procurar um 'sim estruturado'. E 59% afirmam que o contributo das equipas de risco nem sempre é bem recebido. A liderança também não ajuda: só 50% acreditam que os responsáveis apoiam as equipas quando um risco devidamente gerido não produz o resultado esperado.
Este medo de errar tem um custo. A lentidão dos processos de decisão é apontada por 68% dos decisores como uma das principais limitações ao crescimento. A aversão interna ao risco é referida por 54%, e a falta de dados em tempo real por 47%.
Dados fragmentados e o papel da tecnologia
A transformação da gestão de risco depende também da capacidade de reunir e interpretar informação. Cerca de 52% das empresas têm dados de risco fragmentados entre diferentes mercados, o que dificulta análises consistentes e decisões rápidas. Neste contexto, a tecnologia assume um papel crescente: 59% das organizações querem obter informação preditiva, 54% procuram avaliações de risco baseadas em inteligência artificial e metade já utiliza indicadores de alerta precoce.
Mas a adoção destas ferramentas não elimina a necessidade de julgamento humano. Pelo contrário, aumenta a importância de decisões sustentadas por dados, de uma interpretação adequada do contexto e de uma liderança capaz de equilibrar proteção e oportunidade.
O que as empresas esperam dos parceiros externos?
As expectativas relativamente aos parceiros externos também estão a mudar. Segundo o estudo, 77% das empresas querem informação preditiva que permita tomar decisões proativas e 71% procuram maior confiança para aceitar novas oportunidades. Por sua vez, 65% valorizam mecanismos de proteção que lhes permitam assumir decisões comerciais mais ambiciosas. Mais do que transferir ou limitar riscos, as organizações procuram parceiros capazes de converter incerteza em informação útil e operacional.
Portugal: uma oportunidade para crescer com segurança
Portugal apresenta um perfil alinhado com a menor exposição ao risco que caracteriza o sul da Europa, beneficiando de estruturas empresariais menos vulneráveis à volatilidade tecnológica e de crédito observada noutros mercados. A evolução registada em Espanha, onde as equipas de risco são cada vez mais vistas como parceiras estratégicas, também começa a ser observada no mercado português.
O estudo identifica três prioridades para Portugal: melhorar a qualidade e a consistência dos dados, acelerar a utilização de inteligência artificial e de indicadores de alerta precoce e reforçar as equipas de risco como facilitadoras do crescimento.
Esta transformação poderá ser particularmente relevante para setores exportadores e pequenas e médias empresas com ambição internacional, que necessitam de avaliar novos mercados, clientes e oportunidades sem perder capacidade de resposta. Para concretizar esse potencial, será igualmente necessária uma liderança preparada para contextos sem manual.
Perguntas frequentes sobre a gestão de risco nas empresas
O que é o 'sim seguro' na gestão de risco?
O 'sim seguro' é uma decisão que permite aproveitar uma oportunidade de negócio sem ignorar as ameaças associadas. Em vez de simplesmente bloquear, as equipas de risco ajudam a encontrar formas de avançar com segurança.
Porque é que as empresas têm medo de dizer 'sim'?
O medo de errar e a falta de apoio da liderança levam muitas empresas a preferir dizer 'não'. Metade dos decisores inquiridos considera que dizer 'não' é mais seguro do que procurar um 'sim estruturado', o que acaba por travar o crescimento.
Como pode a tecnologia ajudar na gestão de risco?
A inteligência artificial, as ferramentas preditivas e os indicadores de alerta precoce ajudam a analisar dados de forma mais rápida e consistente, permitindo decisões mais informadas e proativas.