Crédito à habitação: o que os bancos não lhe dizem (e deviam)
Pedir um crédito à habitação parece simples: assina-se um papel, paga-se uma prestação todos os meses e pronto. Mas a verdade é que, por trás desse número que aparece no extrato, há armadilhas que podem fazer disparar a fatura sem aviso. E são os trabalhadores, as famílias com ordenados apertados, quem mais sofre com estas surpresas.
Guilherme Henriques, diretor de Produto da Maxfinance Portugal, explica que muita gente pensa que a prestação é fixa, desde que não peça mais dinheiro. Mas não é assim. Existem seguros de vida, seguros multirriscos e outros produtos que os bancos empurram para aumentar a margem. O consumidor acaba a pagar mais sem perceber bem porquê.
Como funciona a taxa variável e por que razão a prestação sobe
Nos contratos com taxa variável, a prestação depende da Euribor, a taxa de referência dos empréstimos entre bancos na zona euro. A esta soma-se o spread, que é a margem do banco. A Euribor sobe e desce ao sabor dos mercados, e quando sobe na data de revisão, a prestação também sobe. O cliente não pediu mais dinheiro, mas paga mais. Isto é um golpe duro para quem vive com o salário contado.
Na taxa fixa, a prestação mantém-se durante o período acordado. Na taxa mista, há uma fase fixa e depois uma variável. Mas atenção: estas opções nem sempre são claras para quem assina o contrato.
Os produtos associados e a armadilha do spread
Algumas propostas incluem seguros ou cartões de crédito que, em troca, reduzem o spread. Mas se o consumidor deixar de manter esses produtos, o spread pode aumentar. Isto está no contrato, mas quantos leem as letras pequenas? A Ficha de Informação Normalizada Europeia (FINE) deve identificar estes produtos e o impacto na prestação. Mas, na prática, muitos assinam sem perceber o que estão a pagar.
TAEG e MTIC: os números que ninguém olha
Não se compare propostas só pela prestação. A FINE inclui a TAEG (Taxa Anual de Encargos Efetiva Global), que mostra o custo total do crédito com juros, comissões e impostos. E o MTIC (Montante Total Imputado ao Consumidor), que revela quanto se paga no final do empréstimo. Guilherme Henriques sublinha que é preciso olhar para a taxa de esforço e para o que realmente se consegue pagar.
Prazo longo não é sinónimo de crédito barato
Uma prestação mais baixa pode vir de um prazo mais longo. Mas isso não significa que o crédito seja mais barato. Pelo contrário, os juros acumulam-se. Henriques lembra que o importante não é o que se paga no próximo mês, mas sim o que se paga ao longo de 15, 20 ou 25 anos. Durante esse tempo, a vida muda: o emprego, os rendimentos, as despesas. É preciso testar o orçamento para cenários de subida da prestação ou quebra de rendimentos.
Perguntas frequentes sobre crédito à habitação
O que é a Euribor e como me afeta?
A Euribor é a taxa de referência usada nos empréstimos entre bancos. Quando sobe, a sua prestação também sobe, mesmo que não tenha pedido mais dinheiro. É um fator externo que pode pesar no seu orçamento.
Devo comparar propostas só pela prestação?
Não. Compare a TAEG e o MTIC, que mostram o custo total do crédito. E veja os produtos associados, como seguros, que podem aumentar a fatura.
O que é a taxa de esforço?
É a percentagem do seu rendimento que vai para o crédito. Se for muito alta, qualquer imprevisto pode ser um problema. Mantenha uma margem de segurança.
Este artigo foi adaptado de uma reportagem do Jornal Expresso.