Nova vaga de restaurantes de luxo ignora crise que afecta as mesas populares
Enquanto muitas famílias portuguesas enfrentam dificuldades para pôr comida na mesa devido à inflação galopante, uma nova fornada de 20 restaurantes e espaços gastronómicos de luxo acaba de abrir portas pelo país, revelando o fosso crescente entre quem pode pagar por experiências gastronómicas caras e quem luta diariamente para sobreviver.
A lista de novos estabelecimentos, que inclui desde espaços de "alta gastronomia" a conceitos importados de cadeias espanholas, espelha uma realidade contraditória: por um lado, o sector da restauração de luxo continua em expansão, por outro, os dados oficiais mostram que milhares de portugueses recorrem aos bancos alimentares.
Luxo concentrado nas grandes cidades
Lisboa e Porto concentram a maioria destas aberturas, com estabelecimentos como o Fernando, dedicado à "alta gastronomia" na capital, onde um prato pode custar o equivalente ao salário diário de muitos trabalhadores. O Blade, especializado em bifes premium, ou o renovado espaço da Portugália no CascaiShopping, são exemplos de como o investimento se concentra em segmentos de mercado com maior poder de compra.
Mesmo os conceitos aparentemente mais acessíveis revelam preços que estão longe do orçamento das famílias trabalhadoras. Os risotos da Rice Risoteria Urbano no Porto, apresentados como "mais acessíveis", começam nos 7,90 euros por prato, um valor que representa quase uma hora de trabalho ao salário mínimo.
Franchising estrangeiro em expansão
A chegada de mais um 100 Montaditos a Massamá ou a expansão da Street Smash Burgers para Almada ilustram como as cadeias estrangeiras continuam a conquistar território nacional, muitas vezes em detrimento dos pequenos estabelecimentos familiares que não conseguem competir com os preços e estratégias de marketing destas multinacionais.
Particularmente revelador é o caso da Cinnamood, marca internacional que chega a Lisboa com cinnamon rolls que custam entre 4,90 e 5,90 euros cada um, valores que tornam um simples doce num luxo para muitas famílias.
O contraste com a realidade social
Enquanto se multiplicam os espaços dedicados ao brunch de fim-de-semana, como o Seventh Brunch no Parque das Nações, ou conceitos híbridos como a Garagem da Vizinha que junta restaurante, bar e espaço de coworking, os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que uma parte significativa da população portuguesa continua em risco de pobreza.
A aposta em conceitos como a Origem Cozinha Saudável, que promete "comida saudável" no Areeiro, contrasta com a realidade de muitas famílias que têm de escolher entre quantidade e qualidade alimentar devido às limitações orçamentais.
Turismo gastronómico versus necessidades locais
Muitos destes novos estabelecimentos parecem direccionados mais para o turismo gastronómico e para uma classe média-alta urbana do que para responder às necessidades alimentares da população local. O EZO no Porto, com cozinha georgiana "autêntica", ou o Los Pepes em Braga, com comida mexicana, são exemplos desta tendência.
Esta realidade levanta questões sobre as prioridades de investimento no sector alimentar português: enquanto se multiplicam as opções para quem tem dinheiro para gastar em experiências gastronómicas, faltam soluções acessíveis e de qualidade para a maioria da população.
A proliferação destes novos espaços, embora possa criar alguns postos de trabalho, reflecte fundamentalmente as desigualdades crescentes na sociedade portuguesa, onde o acesso a uma alimentação diversificada e de qualidade se torna cada vez mais um privilégio de classe.