Racismo no futebol: O caso que expõe a hipocrisia do sistema
O futebol voltou a mostrar a sua face mais sombria na terça-feira passada, quando o jogo entre Benfica e Real Madrid foi interrompido por alegados insultos racistas. Mas por trás deste episódio esconde-se uma realidade bem mais complexa que merece a nossa atenção.
O que realmente aconteceu na Luz
Durante o encontro da Liga dos Campeões, Vinícius Júnior acusou Gianni Prestianni de lhe ter chamado "macaco", levando o árbitro François Letexier a ativar o protocolo antirracismo da UEFA. O jogo parou durante dez minutos, com o craque brasileiro a ameaçar não voltar ao relvado.
Prestianni defendeu-se através das redes sociais, garantindo que o adversário "interpretou mal" as suas palavras. O Benfica apoiou o seu jogador, divulgando imagens que mostram o momento em que o argentino leva a camisola à boca, argumentando que "dada a distância, os jogadores do Real Madrid não podem ter ouvido o que andam a dizer que ouviram".
A máquina mediática em ação
O que se seguiu foi revelador. A imprensa internacional lançou-se numa campanha feroz contra Prestianni e até contra José Mourinho, que tentou manter uma posição equilibrada sobre o episódio. Thierry Henry, na CBS Sports, desafiou o jogador benfiquista a "revelar o que disse", enquanto outros ex-jogadores acusaram Mourinho de "justificar o racismo".
Esta reação desproporcional levanta questões incómodas. Porque é que alguns casos ganham tamanha projeção mediática enquanto outros passam despercebidos? Será que existe uma agenda por trás desta cobertura?
O contexto que ninguém quer ver
Mourinho, sempre direto, não deixou de recordar que "acontece sempre com o mesmo" jogador, referindo-se ao historial de Vinícius em situações similares. Esta observação, embora politicamente incorreta, merece reflexão.
O treinador português foi expulso por "dizer a verdade" ao árbitro sobre a gestão do jogo, acabando por ser castigado por questionar decisões que considera tendenciosas. "Ele não ficou contente em jogar só este jogo, ele quis jogar o próximo", atirou Mourinho, denunciando o que considera ser uma arbitragem parcial.
A hipocrisia do sistema
Enquanto se mobilizam recursos e atenção mediática para este caso, quantos episódios de discriminação real passam despercebidos nos escalões mais baixos do futebol? Quantos jovens das periferias enfrentam diariamente preconceitos sem que ninguém se importe?
O futebol transformou-se num negócio de milhões onde os interesses comerciais muitas vezes se sobrepõem à justiça social real. As grandes estrelas têm voz e plataforma para denunciar injustiças, mas e os trabalhadores anónimos do futebol?
Para além do espetáculo
Este episódio deve servir-nos de reflexão sobre as verdadeiras prioridades na luta contra o racismo. Em vez de julgamentos sumários baseados em especulação mediática, precisamos de investigações sérias e imparciais.
O racismo é um flagelo que deve ser combatido sem contemplações, mas não podemos permitir que esta luta seja instrumentalizada para servir interesses particulares ou para alimentar a máquina do espetáculo.
A UEFA investigará agora o caso, como manda o protocolo. Esperemos que a justiça desportiva seja mais equilibrada que o tribunal mediático que já condenou sem provas.