Pilates de luxo no Parque das Nações: mais um negócio para quem tem dinheiro
Enquanto muitos portugueses lutam para chegar ao fim do mês, há quem abra o quarto estúdio de pilates em Lisboa. A Prescription, marca criada por Vanessa Motte, acaba de inaugurar um novo espaço no Parque das Nações, numa zona onde os preços das casas disparam e os salários continuam os mesmos.
O negócio que cresce enquanto os bolsos se esvaziam
Em dois anos e meio, a Prescription passou de um estúdio em São Bento para quatro espaços em Lisboa, com planos de expandir para o Porto. "Estamos a manter-nos consistentes com a nossa identidade", diz a fundadora, numa altura em que muitas famílias cortam nas despesas básicas.
O conceito é simples: pilates dinâmico de "alta intensidade" em máquinas reformer, com aulas que custam o que muitos portugueses ganham numa manhã de trabalho. A marca até criou uma academia própria que já formou 60 pessoas, transformando o bem-estar numa indústria lucrativa.
Quem pode pagar pelo bem-estar de luxo?
Vanessa Motte garante que "pessoas de todos os níveis e de todas as idades são bem-vindas", mas será que todos os bolsos também são? O novo estúdio no Parque das Nações, "uma área muito dinâmica" como lhe chama, fica numa das zonas mais caras de Lisboa.
A oferta inclui seis modalidades diferentes: First, Signature Dynamic, Cardio, Advanced, Pre and Pos-Natal e Recovery. Há até eventos mensais com DJ, porque aparentemente fazer exercício já não chega, tem de ser com música ao vivo.
O pilates não é tendência, mas o negócio é
A fundadora insiste que "o pilates não é uma tendência" e que existe há mais de 200 anos. Talvez não seja tendência, mas transformá-lo num negócio de elite certamente é. "As pessoas estão mais conscientes sobre aquilo que as vai ajudar a viver mais tempo", explica, esquecendo-se de mencionar que viver mais tempo também depende de ter dinheiro para comer bem e viver dignamente.
O perfil dos clientes revela tudo: apenas 15% são homens, a maioria procura "equilíbrio entre saúde física e mental" e tem possibilidades de vir duas vezes por semana. Enquanto isso, nos bairros populares, o exercício continua a ser correr no parque ou subir as escadas de casa.
Saúde para quem pode pagar
Os benefícios são inegáveis: melhora da postura, flexibilidade, fortalecimento do core e bem-estar mental. Mas fica a questão: porque é que o acesso ao bem-estar continua a ser um privilégio de classe?
Enquanto a Prescription planeia expandir para o Porto em janeiro de 2026, milhares de portugueses continuam sem acesso a cuidados de saúde básicos, quanto mais a pilates de luxo com DJ incluído.
O pilates pode não ser uma tendência, mas a mercantilização da saúde e do bem-estar certamente é uma realidade que não para de crescer.