Patrão da Solverde defende ensino técnico contra elitismo universitário
Manuel Violas, CEO da Solverde, critica décadas de abandono do ensino profissional e apela a empresas para mostrarem aos jovens das classes trabalhadoras que há alternativas ao elitismo universitário.
Num país onde apenas 60 mil jovens optam hoje pelo ensino profissional, contra os quase metade dos estudantes secundários há uma década, o patrão da Solverde não tem papas na língua: "O ensino técnico-profissional não é uma alternativa 'menor'. É via de oportunidades de sucesso".
Portugal está entre os 10 países da União Europeia com menor percentagem de alunos no ensino profissional, uma realidade que espelha décadas de política educativa elitista que empurrou os filhos das classes trabalhadoras para a universidade, deixando sectores essenciais da economia sem mão-de-obra qualificada.
Turismo em crise de pessoal
O turismo, que tanto contribui para o PIB português, enfrenta hoje uma "carência dramática" de trabalhadores qualificados. Uma situação que faz da contratação "uma missão quase impossível para algumas empresas", admite Violas.
Durante a abertura das portas do Casino de Espinho a jovens estudantes, o CEO da Solverde foi claro: "Durante muitos anos, em Portugal, existiu uma tendência clara para valorizar quase exclusivamente o ensino universitário. O ensino profissional foi, de certa forma, colocado em segundo plano".
Esta política educativa, que privilegiou as elites e desvalorizou o trabalho técnico, deixou sectores como a hotelaria, restauração e entretenimento sem os profissionais de que precisam, numa altura em que Portugal se tornou "altamente competitivo" nestas áreas.
Empresas têm de assumir responsabilidade
Para Violas, as empresas não podem ficar "à espera que escolas e centros de formação façam esse caminho sozinhos". É preciso que os patrões mostrem "quais são as necessidades reais do mercado" e que oportunidades existem para quem não segue o caminho universitário tradicional.
"Cabe-nos, enquanto empregadores, mostrar claramente quais são as necessidades reais do mercado, que competências valorizamos e que oportunidades de carreira conseguimos oferecer", defende o gestor.
A iniciativa PRO'4U da Associação Business Roundtable Portugal, que reúne 43 líderes empresariais, pretende valorizar o ensino profissional "aproximando alunos, famílias, escolas e empresas". Uma tentativa de reverter décadas de abandono desta via de ensino.
Contra o estigma social
O CEO da Solverde não esconde que ainda existe "algum estigma" em torno do ensino profissional, fruto de anos de política que empurrou todos os jovens para a universidade, independentemente das suas vocações ou das necessidades da economia.
"O ensino técnico-profissional oferece uma preparação prática, próxima das empresas, que permite entrar mais rápido no mundo do trabalho e crescer com experiência, responsabilidade e confiança", argumenta Violas.
Para os jovens que hoje decidem o futuro, a mensagem é clara: "Não tenham receio de escolher a via que vos aproxima daquilo que gostam de fazer. As carreiras fazem-se de talento, empenho e vontade de aprender".
Uma lição que deveria ter sido aprendida há muito, mas que o elitismo educativo português teimou em ignorar, deixando sectores inteiros da economia à míngua de trabalhadores qualificados.