Passos Coelho volta à carga: um plano de oito anos para Portugal que ninguém pediu
O antigo primeiro-ministro Passos Coelho não se contenta em ver o país de fora. Enquanto o Governo de Luís Montenegro tenta sobreviver à crise, Passos prepara um plano de reformas para o país, com um horizonte de oito anos, e não esconde a ambição de voltar a mandar. O ex-líder do PSD esteve esta sexta-feira no Palácio da Bolsa, no Porto, a explicar o estudo que co-coordena, e deixou pistas sobre o que tem em mente no prefácio de um livro que está a dar que falar.
O que está por detrás do plano de Passos Coelho?
Passos Coelho, juntamente com o antigo dirigente socialista Sérgio Sousa Pinto e Nuno Botelho, presidente da Associação Comercial do Porto, está a preparar um estudo intitulado Bloqueios versus Reformas: uma visão para Portugal. As propostas concretas só serão conhecidas no final de novembro, mas o prefácio do livro Portugal na Paz dos Bloqueios, de Pedro Gomes Sanches, já dá uma boa ideia do que aí vem.
O antigo primeiro-ministro avisa que o tempo para reformar está a esgotar-se, e que o fim do PRR vai ser o ponto de demarcação para a necessidade de respostas urgentes. Para Passos, é preciso encontrar uma maioria pró-reformista, e o Governo tem o dever de a procurar. Mas não explica se isso passa por um acordo com o PS, com o Chega, ou se é uma missão a solo.
Passos Coelho critica Montenegro e aponta o caminho
Num tom que não deixa margem para dúvidas, Passos Coelho avisa Luís Montenegro que os três anos que faltam para o fim da legislatura não podem ser desperdiçados em lamentações. O antigo primeiro-ministro acusa o atual Governo de se perder em simulacros de transformação, como os bónus aos pensionistas, que servem para ganhar votos, mas não mudam nada estruturalmente.
Montenegro já respondeu, dizendo que ninguém muda o país com tristezas e lamúrias. Mas Passos insiste que falta liderança e convicção para levar avante as reformas necessárias. E, numa nova versão do famoso Que se lixem as eleições, Passos escreve que, mesmo que se perca eleitoralmente com uma agenda transformadora, perde-se com a dignidade das ideias, o que não é pouco.
Os quatro pilares da agenda transformadora de Passos Coelho
O antigo primeiro-ministro não tem problemas em elencar os quatro pontos que considera essenciais para uma verdadeira agenda de reformas:
- O sistema previdencial – Passos alerta que a sustentabilidade financeira da Segurança Social está comprometida por mais de década e meia, e que, sem reforma, os futuros reformados vão ter pensões que não chegam para viver dignamente.
- Produtividade e competitividade económica – Sem isto, diz Passos, todas as outras reformas serão ainda mais difíceis de alcançar.
- Políticas sociais – Saúde e educação são prioritárias, porque têm maior impacto no bem-estar e no crescimento.
- Reforma do Estado – Incluindo justiça, defesa, segurança, e uma administração pública mais eficiente, com recurso à inteligência artificial e à digitalização.
Habitação, imigração e Segurança Social: as preocupações de Passos
Passos Coelho também aborda a habitação, um dos grandes problemas do país. Defende que é preciso construir um contexto favorável à resolução do défice de oferta, sem continuar a estimular a procura, que só agrava os preços e a injustiça no acesso às medidas de estímulo.
Sobre a imigração, Passos tem uma posição clara: a imigração não vai resolver o problema da Segurança Social. Alerta que uma imigração concentrada em setores de menor valor acrescentado pode causar problemas de integração e pressão sobre os serviços públicos. E liga este fenómeno à emigração, sublinhando que Portugal perde os seus jovens qualificados, que não ficam para colmatar as necessidades de trabalho em setores de baixos salários.
O que quer realmente Passos Coelho?
A pergunta que fica no ar é: estará Passos Coelho a preparar o regresso ao poder? O antigo primeiro-ministro nunca escondeu a ambição, e este estudo, com um horizonte de duas legislaturas, parece desenhado para ser o seu programa de governo. Resta saber se os portugueses, que já lhe pagaram caro as políticas de austeridade, estarão dispostos a dar-lhe outra oportunidade.
Uma coisa é certa: Passos Coelho não vai ficar calado. E, com este plano na manga, promete dar que falar nos próximos meses.
Perguntas frequentes sobre o plano de Passos Coelho
Quando serão apresentadas as propostas concretas de Passos Coelho?
As propostas finais do estudo Bloqueios versus Reformas serão apresentadas em conferência de imprensa no final de novembro, juntamente com Sérgio Sousa Pinto.
Quais são os principais pontos do plano de Passos Coelho?
Os quatro pilares são: reforma do sistema previdencial, melhoria da produtividade e competitividade económica, reforma das políticas sociais (saúde e educação) e reforma do Estado, incluindo justiça e administração pública.
O que pensa Passos Coelho sobre a imigração?
Passos considera que a imigração não resolve o problema da sustentabilidade da Segurança Social e alerta para os riscos de integração e pressão sobre os serviços públicos, defendendo uma gestão mais controlada.
Passos Coelho quer voltar a ser primeiro-ministro?
O antigo primeiro-ministro nunca o negou, e este estudo, com um horizonte de oito anos, é visto por muitos como uma plataforma para um eventual regresso ao poder.