Macron quer satélites ao serviço do povo: telemóveis ligados ao espaço até 2030
O presidente francês, Emmanuel Macron, subiu ao palco da Cimeira do Espaço, em Paris, com uma promessa que pode mudar a vida de milhões de europeus: até 2030, qualquer cidadão poderá ter o telemóvel ligado diretamente a satélites, sem depender de antenas ou redes terrestres. Mas por trás da tecnologia, há uma luta clara contra a hegemonia dos gigantes americanos e um apelo à Europa para que não fique para trás.
O que é a tecnologia direct-to-device?
A tecnologia direct-to-device permite que os smartphones se liguem diretamente a satélites em órbita baixa, sem necessidade de equipamento extra. Na prática, significa que um marinheiro em alto-mar, um trabalhador numa zona remota ou uma população atingida por uma catástrofe natural pode continuar a comunicar, mesmo quando as redes terrestres falham.
Macron não poupou palavras ao descrever esta inovação: “Amanhã, quando um cidadão atravessar uma zona sem cobertura, quando um marinheiro estiver em alto-mar, quando as redes terrestres deixarem de funcionar na sequência de uma catástrofe, o telefone poderá continuar ligado graças ao espaço. Trata-se de uma nova infraestrutura essencial.”
Europa unida ou submissa aos gigantes americanos?
O discurso de Macron teve um tom claramente contestatário. O líder francês criticou abertamente os grandes agentes europeus do setor espacial, acusando-os de beneficiarem de fundos públicos americanos enquanto fingem defender a soberania do continente.
“Os grandes agentes europeus de que por vezes tanto se fala e que, como percebemos nos discursos que antecederam esta cimeira, querem continuar hegemónicos, não o esqueçamos, são aqueles que receberam mais fundos públicos norte-americanos e que construíram a sua competitividade comercial através de múltiplos lançamentos institucionais financiados.”
Para Macron, a solução passa por uma ação conjunta. O presidente francês defende a criação de um “mecanismo europeu de agregação dos lançamentos institucionais”, que reúna as necessidades da Comissão Europeia, da Agência Espacial Europeia e dos Estados-membros. O objetivo é garantir volumes e preços competitivos, à semelhança do que fazem os Estados Unidos.
Portugal na corrida espacial: Santa Maria como base de lançamento
Portugal não foi esquecido no discurso de Macron. O presidente francês elogiou o surgimento de novas bases de lançamento na Europa, incluindo a de Santa Maria, nos Açores, que se posiciona para ser uma plataforma de acesso ao espaço.
“Temos, naturalmente, bases para isso, com Kourou, na Guiana, mas também estão a surgir novas bases. Penso nos nossos amigos noruegueses, nos nossos amigos suecos, nos nossos amigos portugueses e noutros”, disse Macron.
Uma aliança europeia para não ficar para trás
O presidente francês apelou à indústria para a criação de uma aliança europeia para a tecnologia direct-to-device, com o objetivo de disponibilizar uma oferta competitiva até 2030. “A Europa dispõe de todas as peças necessárias. Os operadores de telecomunicações, os fabricantes e operadores de satélites, as constelações e as tecnologias. É agora necessária uma equipa comum, uma vontade comum e investimentos comuns”, sublinhou.
Macron defendeu ainda uma plataforma de mercado europeia para capacidades espaciais de duplo uso, aberta a parceiros europeus e à NATO, que visa eliminar obstáculos ao acesso a dados, produtos e serviços espaciais. A meta é ter cerca de 50 empresas registadas até 2027.
O preço da soberania: reformas e orçamento reforçado
Para Macron, a competitividade europeia exige reformas profundas, incluindo o fim das “regras demasiado rígidas de retorno geográfico” que impõem constrangimentos insustentáveis aos industriais. O presidente francês deu também apoio público ao reforço do orçamento espacial europeu no próximo quadro financeiro plurianual da União Europeia.
“Ao consagrar finalmente um orçamento espacial europeu à altura das nossas ambições, a França estará ao lado da Comissão para defender a importância de um quadro financeiro plurianual ambicioso, tal como foi proposto”, afirmou.
Uma corrida que não pode ser perdida
O tom de Macron foi claro: ou a Europa age em conjunto, ou ficará para trás numa corrida que define o futuro da comunicação e da soberania tecnológica. “Se recusarmos construir a nossa competitividade, não teremos qualquer hipótese de estar na corrida. Sejamos lúcidos e determinados”, rematou.
Para os cidadãos comuns, a promessa é simples: ligação garantida em qualquer lugar, a preços acessíveis. Para a Europa, a questão é mais profunda: quem controla a infraestrutura essencial do futuro?