O presidente da Câmara de Comércio de Moçambique (CCM), Lucas Chacine, defendeu esta terça-feira em Macau a transferência de indústrias chinesas para Moçambique, apresentando o país como uma plataforma estratégica para produzir e exportar para o mercado africano. A proposta foi feita à margem da abertura da 31.ª Feira Internacional de Macau (MIF), segundo reporta o Sapo - Portugal Online!.
Moçambique quer deixar de ser apenas um mercado de consumo para passar a produzir. E quem o diz é quem negocia com investidores todos os dias.
O que propôs Lucas Chacine
Chacine foi direto ao ponto: Moçambique está bem localizado e pode receber unidades industriais chinesas em setores como o vestuário, a indústria automóvel e a maquinaria.
Moçambique pode servir “como uma plataforma para produzir, nem que seja alguns componentes”, afirmou o dirigente, para quem “é possível produzir em Moçambique, para consumir em Moçambique, mas também para exportar para o vasto mercado regional”.
Um dos argumentos de venda é a força de trabalho: todos os anos entram cerca de 500 mil jovens no mercado de trabalho moçambicano. Um número que, noutras latitudes, seria apresentado como um motor de crescimento. Em Moçambique, é sobretudo um lembrete de que há gerações inteiras à espera de emprego.
A cooperação com a China deve evoluir, defendeu Chacine, de uma relação centrada no consumo para uma aposta na produção em território moçambicano. Ou seja, menos importação de bens manufacturados, mais fábricas e salários cá dentro.
Instabilidade afasta investidores?
Questionado sobre se a instabilidade política pode afastar a China ou outros investidores, Chacine rejeitou a ideia.
“Moçambique é um país estável. Temos alguns focos [de violência] hoje no norte de Moçambique, bem identificados, mas temos um país em paz. Houve naturalmente aquela bolha pós-eleitoral, mas está totalmente controlada”, declarou.
Os factos, porém, pesam. O Banco de Moçambique identificou em junho a tensão pós-eleitoral e a instabilidade militar em Cabo Delgado como algumas das principais vulnerabilidades que afetaram a estabilidade financeira do país em 2025. Os protestos que se seguiram às eleições gerais de outubro de 2024, durante cinco meses, provocaram mais de 400 mortos e a destruição de empresas e património público.
O Relatório de Estabilidade Financeira de 2025 do banco central moçambicano é claro: “os efeitos da tensão pós-eleitoral sobre a maioria dos setores de atividade influenciaram o desempenho da economia”, afetando a circulação de pessoas e bens, reduzindo o volume de negócios e contribuindo para o aumento do desemprego.
Dizer que está tudo controlado é uma coisa. Convencer investidores a construir fábricas num país que contabilizou mais de 400 mortos em protestos é outra bem diferente.
Uma plataforma lusófona para não andar sozinho
Chacine anunciou também que a CCM propôs recentemente a criação de uma plataforma conjunta das câmaras de comércio lusófonas, para reforçar o diálogo empresarial e a abordagem comum a mercados como Macau e a China. A ideia é que os países de língua portuguesa aproveitem as experiências uns dos outros e discutam formas de entrada em novos mercados.
A China definiu em 2003 Macau como plataforma para o reforço da cooperação económica e comercial com o universo lusófono, criando nesse ano o Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, o chamado Fórum de Macau. Mais de duas décadas depois, o desígnio está a ser alargado aos países de língua espanhola.
Chacine disse-se favorável a essa abertura, mas com uma condição que diz muito sobre a história das relações económicas entre o Norte e o Sul.
“Desde que não haja países que só servem para importar e os outros para exportar. Penso que se houver uma abertura em que os nossos países, as nossas empresas tenham também acesso a esses mercados, é positivo e é muito bem-vindo. Acho que temos de mudar esse paradigma”, afirmou.
É a velha crítica à divisão internacional do trabalho: uns exportam manufacturas e tecnologia, outros exportam matérias-primas e ficam por aí. Chacine quer que Moçambique saia dessa posição.
Maputo também bate à porta da China
A ofensiva diplomática e comercial não se fica por discursos em feiras. O presidente do Conselho Municipal de Maputo, Rasaque Manhique, deslocou-se recentemente à província chinesa de Fujian para apresentar as potencialidades económicas da capital moçambicana, segundo reportou o jornal O País.
O município procura investimento chinês para os distritos municipais de KaTembe e KaNyaka, na Ilha de Inhaca, com destaque para a habitação, o turismo, as infraestruturas urbanas, os transportes e a digitalização, noticiou também o Club of Mozambique.
Uma das prioridades locais é o desenvolvimento habitacional e turístico de KaTembe e Inhaca, uma aposta que o MZNews reportou como parte da estratégia do município para atrair capital estrangeiro.
Transformar antes de exportar
Chacine sublinhou que Moçambique tem vindo a adotar medidas para promover a transformação de matérias-primas antes da exportação.
“Hoje a palavra de ordem é transformar pelo menos uma parte para podermos ver esses mercados, não apenas como fornecedores de matéria-prima, mas também de produtos manufaturados”, afirmou.
A frase resume o desafio de fundo. Um país que exporta castanha de caju e gás natural continua a importar quase tudo o que consome. Industrializar, transformar e criar emprego é a única via para que os 500 mil jovens que entram cada ano no mercado de trabalho não fiquem condenados ao desemprego ou à economia informal.
As peças estão sobre a mesa: mão de obra abundante, localização estratégica, um gigante chinês com indústrias a procurar novos mercados. Falta saber se a estabilidade política, o tal “país em paz” de que fala Chacine, aguenta o passo que o país quer dar.
Perguntas frequentes
O que propôs Moçambique à China?
Lucas Chacine, presidente da Câmara de Comércio de Moçambique, propôs a transferência de indústrias chinesas para Moçambique, nos setores do vestuário, automóvel e maquinaria, para produzir e exportar para o mercado regional africano.
Quantos jovens entram no mercado de trabalho em Moçambique?
Cerca de 500 mil jovens entram todos os anos no mercado de trabalho moçambicano, segundo Lucas Chacine, que apresentou este número como um argumento para atrair indústrias.
Moçambique é um país estável para investir?
Chacine defende que sim, mas o Banco de Moçambique identificou em junho a tensão pós-eleitoral e a instabilidade militar em Cabo Delgado como vulnerabilidades para a estabilidade financeira em 2025. Os protestos após as eleições de outubro de 2024 provocaram mais de 400 mortos.
