O ministro da Secretaria de Relações Institucionais do Brasil, José Guimarães, admitiu nesta sexta-feira, 23 de outubro, que a campanha de Lula da Silva subestimou o bolsonarismo na primeira volta das presidenciais, ao acreditar que a vitória já estava garantida. As declarações foram dadas à agência Lusa e avançadas pelo Correio da Manhã, a uma semana do segundo turno que opõe Lula a Flávio Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), venceu a primeira volta com uma vantagem de dois pontos percentuais, cerca de 2,2 milhões de votos, e entra na reta final como favorito. É a primeira vez desde 1989 que um candidato da esquerda chega ao segundo turno em desvantagem deste tamanho.
A confissão de quem conduziu a articulação política do Governo
Primeiro, achar que a campanha estava ganha. O Lula tinha essa percepção, de que a eleição estava ganha, afirmou José Guimarães, reconhecendo que a avaliação era partilhada pela maioria dos elementos da coordenação da campanha.
Para o ministro responsável pela articulação política do Governo, o erro foi agravado pela quebra da votação de Lula no Nordeste, o tradicional reduto petista. Só no Ceará perderam-se cerca de 400 mil votos; na Bahia, 600 mil. Lula tenta agora recuperar terreno na segunda volta.
Guimarães apontou também disputas locais como fator de desgaste. Em Pernambuco, a campanha optou por um dos dois candidatos que a podiam apoiar. No Ceará, seu estado de origem, a rutura interna abriu espaço a André Fernandes, do PL, que obteve mais de 600 mil votos.
Faltou comando e faltou frente ampla
Eu acho que faltou sobretudo comando. A coordenação não deu conta da tarefa de conduzir à quarta vitória, disse o ministro, que apontou a ausência de um discurso de frente ampla como uma falha fundamental.
Na sua avaliação, a frente ampla deveria ter envolvido toda a campanha, com a participação de partidos do centro na coordenação e a sinalização clara de que seriam chamados a integrar um eventual novo Governo. A estratégia teria de ser diferente da de 2022, quando Lula venceu sem o apoio inicial do centro e depois levou vários desses partidos para o Governo, sem identidade programática comum.
Guimarães citou o caso do União Brasil, que integrou o Governo com três ministérios e que agora apoia Flávio Bolsonaro no segundo turno, como exemplo do problema a evitar.
O Centrão e o preço da arrogância eleitoral
O ministro foi particularmente crítico da relação com o Centrão, o bloco de partidos sem base ideológica definida que compõe qualquer Governo em troca de ministérios, cargos e influência. Problemas nas alianças regionais afastaram o Partido Progressista, o União Brasil e os Republicanos, com conflitos no Piauí, na Paraíba e em Minas Gerais.
Guimarães criticou ainda o tempo que o PT desperdiçou à volta do ex-senador Rodrigo Pacheco como possível candidato em Minas Gerais, o segundo maior reduto eleitoral do país. Pacheco disse há mais de dois anos que não seria candidato e é hoje juiz do Tribunal de Contas da União.
Eles estavam chateados, com razão, tinham a razão deles, mas o que pesou para tomarem a decisão foi a história de que o Flávio já ganhou, vamos lá, resumiu o ministro, referindo-se à debandada dos partidos do centro depois da primeira volta.
Lula nega ter subestimado a direita
As declarações do ministro chegam dias depois de o próprio Lula ter negado, em declarações reportadas pelo ND Mais, que tivesse subestimado o potencial de Flávio Bolsonaro. Ninguém subestima a capacidade da direita nesse país e no mundo inteiro, disse o presidente, admitindo ainda assim frustração com o resultado do primeiro turno.
Os números pesam: segundo dados citados pela Bossa News, Flávio Bolsonaro somou 47,03% dos votos válidos (56.104.503), contra 45,16% de Lula (53.879.538). Como recorda o Observador, desde a introdução do sistema de duas voltas em 1989, nenhum candidato em desvantagem destas dimensões conseguiu dar a volta.
A reação da segunda volta e o papel do povo
Apesar das críticas, Guimarães defendeu que a campanha reagiu no segundo turno, apontando dois fatores decisivos: as mobilizações espontâneas nas ruas e a mudança de atuação nas redes sociais, espaço onde a esquerda foi derrotada durante anos.
Eu acho que encontrámos o rumo, afirmou.
Nós vamos ganhar essa eleição por uma razão: é uma decisão do povo. O povo passou a ser o sujeito dessa eleição, pro bem e pro mal, de um lado e de outro, sobretudo o nosso lado.
Independentemente do resultado de domingo, o ministro deixou um apelo à militância: não perder a esperança jamais, com vitórias ou com derrota.
Perguntas frequentes
Quem venceu a primeira volta das presidenciais brasileiras?
Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, uma vantagem de cerca de 2,2 milhões de votos.
Quando é realizada a segunda volta?
O segundo turno realiza-se no próximo domingo, 30 de outubro.
Quem é José Guimarães?
É o ministro da Secretaria de Relações Institucionais do Brasil, responsável pela articulação política do Governo, natural do Ceará.
