Indústria da Defesa: a nova fronteira para as PME portuguesas ou mais uma miragem?
Durante muito tempo, falar da indústria da Defesa evocava imagens de armamento pesado, gigantes multinacionais e de um mercado aparentemente distante e inacessível para as pequenas e médias empresas nacionais. Hoje, essa realidade mudou e a Defesa deixou de ser um nicho exclusivo das empresas tradicionais do setor, para se assumir cada vez mais como um motor transversal de inovação, resiliência industrial e internacionalização.
As cadeias de valor da Defesa envolvem hoje áreas tão diferentes como têxteis técnicos, metalomecânica, eletrónica, software, cibersegurança, comunicações, sensores, robótica, mobilidade, indústria naval ou aeronáutica. E é precisamente aqui que surge uma oportunidade especialmente relevante para Portugal.
O que as PME portuguesas já sabem fazer e podem adaptar
Muitas PME portuguesas já têm provas dadas nestas áreas e já possuem competências de elevado nível desenvolvidas para o mercado civil. Uma empresa de vestuário técnico pode adaptar conhecimento e capacidade produtiva a fardamento especializado, uma metalomecânica pode fornecer componentes para veículos e equipamentos, uma tecnológica pode desenvolver sistemas de comunicação, cibersegurança ou sensores, e uma empresa ligada ao setor automóvel pode adaptar soluções para utilizações específicas nesta área.
Esta lógica de dual-use (dupla utilização) permite reaproveitar e escalar competências já existentes nas nossas empresas, reduzindo a distância entre aquilo que as empresas fazem hoje e aquilo que poderão fornecer amanhã. Mais do que criar uma indústria completamente nova, trata-se, em muitos casos, de reorientar conhecimento e capacidade instalada para mercados com contratos de longo prazo, elevados níveis de exigência e integração em cadeias de valor internacionais de maior valor acrescentado.
A posição de Portugal: entre a geografia e a capacidade de resposta
Portugal parte de uma posição que não deve ser desvalorizada. A localização atlântica, a participação na NATO e a integração na União Europeia dão ao país condições para se afirmar não apenas como fornecedor secundário, mas como um parceiro industrial fiável, especializado e ágil, num momento em que a Europa procura reforçar a sua autonomia, resiliência e capacidade produtiva na área da Defesa. Contudo, a vantagem competitiva não virá da geografia: virá da nossa capacidade de resposta e especialização.
Para as empresas, entrar neste mercado pode ainda produzir um efeito que ultrapassa largamente os contratos que venham a conquistar. Requalificar uma organização para cumprir os padrões da indústria de Defesa implica, frequentemente, aumentar a fasquia na qualidade, na rastreabilidade, na cibersegurança e na qualificação do talento. Este ganho de maturidade operacional não serve apenas para ganhar concursos de Defesa: eleva a competitividade global da empresa e abre portas a clientes internacionais em qualquer setor.
Incentivos públicos: uma ferramenta, não uma muleta
É também neste contexto que devem ser analisados os incentivos públicos. O Portugal 2030 e o Fundo Europeu de Defesa preveem dotações expressivas para apoio ao investimento produtivo e à investigação, desenvolvimento e inovação. É facto conhecido que os calendários oficiais de abertura dos avisos raramente acompanham a velocidade e a urgência das empresas. Mas esperar passivamente pela publicação de um concurso para começar a desenhar um projeto é um erro.
Uma candidatura a fundos comunitários deve ser a consequência de uma estratégia empresarial sólida, não a sua origem. Antes de perguntar qual será a taxa de apoio, a empresa deve perceber que competência pode valorizar, que produto ou tecnologia poderá adaptar, que investimentos serão necessários, que certificações terá de obter e em que cadeia de valor pretende posicionar-se. Os incentivos existem para reduzir o risco do investimento e acelerar a inovação, não para subsidiar a falta de visão.
E a pergunta que cada empresário deve fazer hoje
Portugal dificilmente competirá em escala com as maiores potências industriais europeias, mas pode competir em especialização técnica, inovação e capacidade de resposta. E muitas empresas portuguesas podem estar hoje mais próximas da indústria de Defesa do que imaginam.
Por isso, a pergunta que cada empresário e gestor deve fazer hoje não é quando abrem os próximos avisos? É, antes de mais, que parte do conhecimento que já temos pode ser indispensável para este mercado? Porque os avisos hão-de chegar, mais tarde ou mais cedo. A vantagem estará do lado de quem já se começou a preparar.
Numa altura em que a Europa fala em rearmamento e autonomia estratégica, a pergunta que fica no ar é: vai o Estado português apoiar as nossas empresas ou deixá-las à mercê da burocracia e dos grandes grupos económicos?