Figueira da Foz: Portuguesas caem, mas a garra fica
O Figueira da Foz Ladies Open perdeu as suas portuguesas logo na primeira ronda. Francisca Jorge, Matilde Jorge e Angelina Voloshchuk foram eliminadas do quadro principal de singulares, deixando a edição mais importante de sempre do torneio, a primeira como WTA 125, sem representação nacional após o arranque. Mas os resultados frios não contam toda a história. A luta destas mulheres em campo é resistência pura.
Francisca Jorge: A número um que esteve a um fio de dar a volta
Francisca Jorge é a número um nacional e a portuguesa com melhores recordações do Tennis Club da Figueira da Foz. Semifinalista em 2023 e quartofinalista em 2025, quando ainda era um ITF W100, a vimaranense de 26 anos conhece aqueles campos como poucas. Mas desta vez, a memória não chegou para segurar o resultado.
Diante da australiana Elena Micic, 351.ª do mundo, Francisca perdeu por 6-4 e 7-6(3). Os parciais contam uma história seca. A realidade é outra. A vimaranense esteve longe do seu melhor nível, é verdade, mas liderou o segundo set por 4-0 e teve três set points no serviço antes de conceder o segundo break. Esteve ali, à beira de forçar um terceiro set. O ténis de competição, porém, não perdoa quem falha nos momentos decisivos.
Matilde Jorge: A vantagem que se esfumou diante de uma ex-número 21
Antes, Matilde Jorge, 283.ª WTA, já tinha caído frente a Jil Teichmann, 130.ª mundial, por 7-5 e 6-1. A mais nova das vimaranenses liderou o primeiro set por 5-3 diante de uma antiga número 21 mundial, vencedora de dois torneios do circuito principal entre cinco finais. Depois, deixou escapar a vantagem e consentiu 10 dos últimos 11 jogos. A diferença de experiência pesa, e pesa muito.
Teichmann, que há dois meses regressou à competição em Portugal com uma vitória no Oeiras Open 125, está novamente a caminho do lote das 100 melhores do mundo. Depois de passar pelo Jamor, foi semifinalista do WTA 250 de Rabat, em Marrocos, e atingiu pela segunda vez na carreira os oitavos de final de Roland-Garros. Na Figueira da Foz, apresenta-se como a quinta mais cotada. Contra jogadoras deste calibre, cada oportunidade falhada paga-se caro.
Angelina Voloshchuk: A mais jovem, a última a ceder, a que mais promete
A mais nova das três portuguesas foi a última a ser eliminada. Com apenas 19 anos, número três nacional, Angelina Voloshchuk, 358.ª WTA, chegou de duas vitórias na fase de qualificação. Lutou de igual para igual com a checa Darja Vidmanova, 108.ª mundial e terceira cabeça de série.
Perdeu por 6-4, 1-6 e 6-4, mas esteve em condições de celebrar a melhor vitória da carreira em termos de ranking. Abriu uma vantagem de 4-2 na primeira partida, mas não lidou bem com a variação de jogo da adversária e perdeu quatro jogos em catadupa. No segundo set, reduziu o risco e penalizou a direita mais vulnerável de Vidmanova, colhendo rapidamente os frutos. Na reta final, porém, jogou com pouca margem e cometeu demasiados erros. A idade e a inexperiência cobraram o seu preço.
Mas Angelina é jovem. Aprende. E a luta que mostrou em campo é já uma vitória para quem representa um país onde o ténis feminino ainda luta por espaço, por recursos e por visibilidade.
O que acontece agora às portuguesas?
Francisca Jorge rumará a Londres para disputar o qualifying de Wimbledon pela segunda vez. Matilde Jorge continuará na Figueira para disputar a variante de pares, ao lado da polaca Martyna Kubka. Curiosamente, terá pela frente a compatriota Angelina Voloshchuk, que faz par com a finlandesa Anastasia Kulikova. Duas portuguesas frente a frente nos pares, numa prova onde as singulares já não lhes pertencem.
Korneeva: A russa que domina a Figueira
Enquanto as portuguesas saíram, Alina Korneeva fez o que tem feito todas as vezes que pisa o court da Figueira: vencer. A russa, 97.ª mundial, convidada pela organização para regressar ao torneio que venceu em 2023, não perdeu tempo e aplicou os parciais de 6-2 e 6-4 à chinesa Fangran Tian, 245.ª, ao cabo de 1h22.
A jovem de 19 anos tem agora um registo de 14 vitórias nos 15 encontros disputados na Figueira da Foz. Venceu como qualifier em 2023, foi finalista na mesma condição em 2025, e agora ataca a edição mais importante. A próxima adversária será Martyna Kubka, 230.ª, da Polónia.
Na jornada anterior, o torneio já tinha perdido duas estrelas com as eliminações de Beatriz Haddad Maia, ex-top 10, e Vera Zvonareva, antiga número dois mundial e finalista de dois torneios do Grand Slam.
Porque é que o ténis feminino português precisa de mais que talento?
Três portuguesas no quadro principal de singulares de um WTA 125 é já um marco. Mas a eliminação logo na primeira ronda mostra o caminho que falta percorrer. As jogadoras nacionais precisam de mais competições, mais apoio financeiro e mais visibilidade para competirem de igual para igual com as tenistas dos países dominadores do circuito.
A garra está. O talento também. O que falta é a estrutura que permita a estas mulheres brilhar de forma consistente, sem terem de lutar contra tudo e contra todos só para estarem no quadro principal.