Lucro da Corticeira Amorim cai a pique: 31,7% para o buraco, culpa é do dólar e da reestruturação
A Corticeira Amorim, gigante da cortiça com sede em Mozelos, Santa Maria da Feira, viu os lucros derreterem 31,7% no primeiro semestre de 2026, para 25,2 milhões de euros. A empresa culpa o dólar fraco e os custos de uma reestruturação dolorosa no setor dos pavimentos. Para os trabalhadores e as comunidades que dependem desta indústria, os números são mais um sinal de que a crise não poupa ninguém.
No segundo trimestre, a coisa ainda foi pior: o lucro caiu mais de metade, 51,9%, para uns magros 9,8 milhões de euros. As vendas totais também escorregaram 5,8%, para 445,8 milhões. A empresa diz que, se não fosse a desvalorização do dólar, a queda teria sido de 4,6%. Mas a verdade é que a procura está a encolher, especialmente no negócio das rolhas para vinhos tranquilos, onde o mix de produto está a pesar.
Reestruturação a fundo: despedimentos e fecho de filiais
O grande bode expiatório é a reestruturação do segmento de pavimentos, iniciada em maio de 2024. A Amorim Cork Solutions está a apertar o cinto: ajusta a produção, corta nas áreas de suporte e, mais grave, está a fechar filiais próprias no estrangeiro para passar a trabalhar com distribuidores. Na Alemanha, a mudança é radical: a filial local é reestruturada, com cortes de pessoal e redução de stocks. Os serviços de investigação e desenvolvimento voltam para Portugal, numa tentativa de centralizar e poupar.
A empresa garante que é para “proteger a rentabilidade e assegurar a viabilidade de longo prazo”. Mas para quem perde o emprego ou vê a filial fechar, a promessa soa a música de sempre: o lucro acima das pessoas.
Dívida controlada, mas a que custo?
Nem tudo são más notícias para os acionistas. A dívida líquida caiu para 63,6 milhões de euros, menos 12,3 milhões do que no final de 2025. E, apesar da crise, a empresa pagou 46,6 milhões em dividendos, gastou 13,7 milhões em investimentos e ainda comprou ações próprias no valor de 4,6 milhões. Ou seja, há dinheiro para os acionistas, mas para os trabalhadores é o aperto.
O CEO, António Rios de Amorim, fala em “resiliência do modelo de negócio” e “solidez do balanço”. Diz que o grupo está focado em inovação e sustentabilidade, e até abre a porta a parcerias nos Estados Unidos e na Ásia. Mas, para as classes populares que vivem da cortiça, a resiliência é deles, a crise é nossa.
O que se segue?
A Corticeira Amorim continua a ser um gigante mundial da cortiça, mas a reestruturação está a deixar rasto. Os trabalhadores dos pavimentos, especialmente na Alemanha, estão na linha da frente. Enquanto isso, a empresa aposta em novos mercados e produtos, como rolhas para espumantes e aplicações aeroespaciais. Mas a pergunta que fica é: até onde vai o aperto antes de a corda rebentar?