Ferrari Luce: o primeiro elétrico da marca italiana chega enquanto milhões lutam por transporte público digno
Enquanto as famílias portuguesas enfrentam dificuldades crescentes para pagar combustível e transportes públicos deficitários, a Ferrari apresenta o seu primeiro modelo totalmente elétrico, o Luce, com detalhes de luxo que custam mais que o salário anual de muitos trabalhadores.
O habitáculo deste automóvel de elite foi revelado esta segunda-feira através de imagens digitais, mostrando um interior que a marca italiana descreve como inspirado na história automóvel e da aviação. Três ecrãs dominam o espaço: bitácula, painel central e painel traseiro, todos desenhados para simular instrumentação analógica tradicional, apesar de serem completamente digitais.
Tecnologia ao serviço do luxo
A Ferrari procurou criar no Luce um ambiente "tranquilo, focado e espaçoso", privilegiando controlos físicos em detrimento dos grandes ecrãs tácteis que dominam os carros modernos. Uma abordagem que contrasta com a realidade da maioria dos condutores, que se contentariam com um veículo elétrico acessível para as suas deslocações diárias.
O volante de três raios reinterpreta o clássico Nardi dos anos 1950 e 1960, fabricado em alumínio 100% reciclado. Pesa menos 400 gramas que um volante convencional da marca e integra comandos para caixa de velocidades simulada, modos de condução e limpa-para-brisas.
Os gráficos da bitácula inspiram-se na instrumentação histórica das décadas de 1950 e 1960, com design minimalista que se move com o volante. Utiliza ecrãs OLED desenvolvidos em colaboração com a Samsung, combinando elementos digitais e analógicos numa unidade anexa à coluna de direção.
Inovações para poucos
A alavanca de velocidades é fabricada em Cornering Gorilla Glass, utilizando processos nunca antes aplicados no design automóvel. O ecrã central monta-se numa junta esférica, permitindo orientação tanto para o condutor como para o passageiro.
O painel central inclui três ponteiros em alumínio anodizado num mostrador com quatro modos: relógio, bússola, controlo de arranque e cronógrafo. Acima, encontram-se controlos físicos para arranque, climatização, luzes interiores e chamada SOS.
A chave do Luce representa uma inovação única no sector, feita em Cornering Gorilla Glass e incluindo um ecrã E Ink desenvolvido especificamente para este modelo. Quando inserida na consola central, desencadeia uma coreografia em que a cor muda de amarelo para preto, integrando-se na superfície de vidro.
Duas velocidades na transição energética
Enquanto a Ferrari desenvolve tecnologias sofisticadas para os seus clientes milionários, a transição energética no transporte continua inacessível para a maioria das famílias trabalhadoras. Os veículos elétricos permanecem um luxo distante da realidade de quem depende de transportes públicos inadequados ou de carros antigos que mal consegue manter.
O Luce representa mais um símbolo das desigualdades sociais crescentes: inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental reservadas a uma elite, enquanto as classes populares continuam excluídas das soluções para a crise climática e energética.