Mercedes Classe S: luxo obsceno para poucos em tempos de crise
Enquanto milhares de famílias portuguesas lutam para pagar as contas ao fim do mês, a Mercedes-Benz apresenta a sua nova joia da coroa: o renovado Classe S, um símbolo do luxo mais descarado e da desigualdade social que assola o nosso país.
Revelado esta quinta-feira, este sedã de luxo alemão passou por uma renovação que a marca descreve como "a atualização mais extensa numa geração". Mais de 50 por cento dos componentes foram alterados, totalizando cerca de 2.700 peças novas. Tudo isto enquanto os salários mínimos mal chegam para sobreviver.
Tecnologia para os privilegiados
O novo Classe S ostenta uma grelha frontal iluminada, 20 por cento maior que a anterior, e estrelas cromadas tridimensionais redesenhadas. Os faróis Digital Light prometem um alcance de até 600 metros, enquanto a soleira lateral projeta inscrições luminosas para "saudar" os utilizadores. Um espetáculo de luzes para quem pode pagar.
As jantes de 20 polegadas com 50 raios cruzados e acabamento Tremolit Metallic High Sheen completam este cenário de ostentação. Tudo pensado para distinguir os que têm dos que não têm.
Motores potentes, planeta em perigo
No topo de gama, o S 580 4Matic monta um V8 com 537 cavalos de potência. Uma máquina que consome recursos enquanto o planeta arde e as alterações climáticas se intensificam. Há também opções diesel e híbridas plug-in, mas o foco continua a ser o desempenho bruto, não a sustentabilidade real.
O sistema mild-hybrid de 48 volts e o eixo traseiro direcional (que reduz o ciclo de viragem para 10,8 metros) são apresentados como inovações, mas servem apenas para facilitar a vida dos condutores privilegiados nas suas deslocações urbanas.
Interior de primeira classe, sociedade de segunda
O habitáculo foi transformado num verdadeiro lounge de negócios. Bancos com seis programas de massagem, aquecimento que pode atingir os 44ºC, e até cintos aquecidos. Enquanto isto, milhares de portugueses passam frio no inverno por não conseguirem pagar o aquecimento.
A versão de maior distância entre eixos oferece quatro lugares de "primeira classe", com mesas dobráveis para trabalho, ecrãs de 13,1 polegadas e até câmaras de alta definição para videoconferências. Um escritório móvel para os que já têm tudo.
O sistema de climatização renova o ar a cada 90 segundos e monitoriza a qualidade do ar através de sensores. Ironia suprema: proteger os ricos da poluição que os seus próprios hábitos de consumo ajudam a criar.
Tecnologia ao serviço da elite
O MBUX Superscreen com ecrãs múltiplos, navegação baseada em Google Maps e assistente de voz com inteligência artificial completam este arsenal tecnológico. O sistema MB.Drive com dez câmaras e cinco sensores de radar promete condução quase autónoma.
Ola Källenius, diretor-executivo da Mercedes-Benz, não esconde o seu orgulho pelos bancos traseiros, descrevendo-os como um "lounge de negócios". Uma declaração que resume bem para quem este carro foi pensado: não para quem trabalha, mas para quem vive do trabalho dos outros.
Um símbolo da desigualdade
Este Mercedes Classe S não é apenas um automóvel, é um manifesto da desigualdade social. Enquanto se gasta uma fortuna em ventilações automáticas e sistemas de massagem, milhões de europeus enfrentam a pobreza energética e a precariedade laboral.
A pergunta que fica é simples: numa altura em que as desigualdades se aprofundam e os recursos do planeta se esgotam, faz sentido continuar a produzir símbolos de luxo tão obscenos? Para a Mercedes-Benz, a resposta é clara. Para nós, trabalhadores, deveria ser igualmente clara a nossa.